Baixo nível dos reservatórios não é só falta de chuvas mas também desequilíbrio ecológico

01/06/2001

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Liana John
 

Nunca os reservatórios de hidrelétricas foram tão monitorados: gráficos e tabelas com os níveis de água estão presentes em inúmeras entrevistas coletivas e ganham até horário nobre na televisão, em meios às justificativas da crise energética. Infelizmente, as razões porque os reservatórios estão muito abaixo de sua capacidade não são divulgadas com o mesmo entusiasmo. 
Expansão urbana descontrolada, erosão nas margens, assoreamento dos reservatórios (e dos cursos d´água que os abastecem), usos múltiplos, superexploração, mudança dos padrões de evapotranspiração local e falta de recarga do lençol freático são alguns dos palavrões freqüentemente usados por técnicos e ambientalistas em seus alertas, considerados chatos demais pelas autoridades responsáveis pela política energética. Ao invés de dar ouvidos a quem aponta causas, tem sido mais fácil dar prioridade para as políticas de curto prazo, em detrimento do planejamento e gerenciamento de longo prazo. E, quando a crise estoura, existe a eterna possibilidade de culpar a instabilidade do clima e contar com a memória curta do público. 

Embora cidades como São Paulo e Campinas estejam a menos de 30 dias das últimas enchentes e maio seja o mês em que normalmente pára de chover no interior do Nordeste, uma seca hipotética figura nos discursos. Choveu menos do que o normal em algumas regiões? Choveu menos, é verdade. Mas nada tão excepcional para justificar tamanha crise. As variações no índice de chuvas estiveram dentro do normal. Muito abaixo do normal só a capacidade de captar as águas de chuva e recompor os níveis dos reservatórios. 
Em áreas cobertas por vegetação nativa - como deveriam ser todas as margens de reservatórios e cursos d´água, se a lei fosse cumprida no país - as chuvas são retidas pelas plantas, penetram no solo devagar, abastecem o lençol freático (reservatório de águas subterrâneas) e chegam às represas sem carregar sedimentos, limpas, disponíveis para serem usadas. Parte destas chuvas volta à atmosfera por evaporação ou transpiração das plantas, tornando as chuvas locais, a grosso modo, mais freqüentes e menos violentas. 
Em áreas urbanas excessivamente impermeabilizadas, isto é, com grande predominância de sua superfície coberta por asfalto e cimento, as chuvas não têm como penetrar no solo e escorrem superficialmente, formando enxurradas e descendo para os cursos d´água e baixadas, em grandes enchentes. No caminho, arrastam sedimentos e todo tipo de lixo, que vai entulhar os rios e reservatórios mais próximos, tornando-os mais e mais rasos (assoreamento). O lençol freático não se recompõe. Mudam os padrões de evaporação, quase não há transpiração (de plantas) e o microclima local se altera, tornando as próximas chuvas mal distribuídas e mais violentas, num círculo vicioso. 
Quando é uma área agrícola e não uma cidade, que chega às margens do reservatório, a movimentação de terra para o plantio ou a falta de vegetação bem enraizada durante a estação chuvosa gera erosão, que termina carregando sedimentos para os rios e represas, tornando-os mais rasos e reduzindo sua capacidade de armazenar água. O manejo inadequado do solo também pode conduzir à compactação e, assim como o asfalto e cimento das cidades, impedir a penetração da água das chuvas e deixar de recompor o lençol freático. 
Quando a ocupação em torno do reservatório é clandestina - leia-se favelas e loteamentos ilegais - à erosão, impermeabilização, assoreamento e falta de recomposição do lençol freático soma-se o despejo de esgotos in natura e a deposição de lixo doméstico. E reduz-se ainda mais rápido a capacidade de armazenagem de água dos reservatórios. 
Para manter ou melhorar os níveis dos reservatórios, portanto, não basta chover mais. É preciso reflorestar as margens dos reservatórios e dos cursos d´água, é preciso permeabilizar os solos urbanos e ocupações clandestinas, é preciso interromper o assoreamento e o despejo de lixo e esgoto nas represas. É preciso também rediscutir as prioridades de uso da água - conforme está previsto nas novas leis de recursos hídricos - e evitar a superexploração. A água que serve para irrigação, indústrias, abastecimento, transporte e energia é a mesma. E só racionalizando e gerenciando corretamente seu uso será possível evitar crises permanentes. 
 
Liana John, jornalista, é editora da revista Terra da Gente




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