O que aprendi com as aves silvestres

06/01/2002

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Sem perceberem a extensão do dano às populações de aves silvestres, agricultores e cidadãos urbanos são responsáveis pela disseminação de agrotóxicos e gatos domésticos
 
Gert Roland Fischer 
 
Os pássaros sempre me fascinaram. Como engenheiro agrônomo ligado direta e permanentemente à Natureza e mesmo antes, como cidadão do Planeta, com a infância e minha juventude inesquecíveis e prazeirosamente vividas em Porto União, SC, sempre tentei entender os recados, que vinham das aves silvestres. 
Ensinaram-me as aves, que os filhotes tirados do ninho e criados presos em gaiolas, não tem mais condições de voltar à natureza. Ensinaram-me as aves, que o BHC - inseticida clorado proibido hoje e aplicado às sementes do arroz antes do plantio - dizimou a esmagadora maioria dos curiós, que habitavam os vales do Itajaí, Itapocú e outros em Santa Catarina, na década de sessenta. A mortandade era assustadora. Após o semeio de arroz envenenado, o solo ficava coberto de cadáveres de canários da terra, vira-bostas, pombas e principalmente curiós. O cheiro da morte contaminava as arrozeiras químicas e venenosas. 
A morte de pássaros nas arrozeiras continua com o uso de herbicidas nas valas de irrigação e nos tabuleiros e mata os que se alimentarem das sementes de gramíneas, intoxicadas pelo veneno. Essa mortandade também é constatada em todo o percurso das ferrovias, onde uma lei dos brasileiros subservientes dos ricos e dóceis idólatras dos americanos, permite a aplicação de milhares de toneladas do herbicida Glyphosate, para manter a malha ferroviária limpa de plantas indesejáveis. 
As saracuras estão por toda a Joinville. Comem macarrão, milho e arroz cozidos e fornecidos pelas pessoas, que sabem que se não o fizerem, os condenarão à extinção. Todos os banhados foram destruídos pelo famigerado programa, que se chamou um dia de Pró-Várzea, orgulho de muitos governantes desinformados e arrogantes. Com o desaparecimento das áreas úmidas, perderam seu habitat: as garças, as saracuras, as madalenas, os anfíbios como sapos e pererecas, os jacarés de papo amarelo, a capivara, a lontra, entre outros e tantos outros animais e aves silvestres. 
Os grandes inimigos dos pássaros são os felinos: gatos, que as pessoas criam aos milhares e quando as proles ficam muito grandes e incontroláveis, essas mesmas pessoas os soltam em regiões próximas aos fragmentos restantes da Mata Atlântica. Esses gatos domésticos ao entrarem nesses nichos silvestres nos perímetros urbanos, mudam o comportamento na busca da comida. Passam a se alimentar de pássaros, principalmente os filhotes que caem dos ninhos localizados nas copas das árvores. Os sabiás, as corruíras, saíras, rolinhas marrons, saracuras, e tantos outros, perdem - a cada primavera - das duas ou três ninhadas que chocam, mais de 50% de seus filhotes, os quais quando não são comidos pelos gaviões, tucanos, corujas e anus brancos e pretos, são alimento também dos gambás. 
Os pássaros não carnívoros se alimentam o ano todo das sementes das árvores. A figueira nativa nos mês de março oferece milhões de figos minúsculos para as saíras, sanhaços, sabiás, bem-te-vis, periquitos e até morcegos não hematófagos nos elegantes vôos noturnos, agarram com as unhas os frutos que são devorados em pleno ar. O camboata, outra árvore nativa da Mata Atlântica, frutifica em novembro e é o alimento dos sabiás vermelhos, bem-te-vís, sanhaços e siriris, que também são insetívoros. O jacatirão-açú que floresce entre novembro e dezembro, tem seus minúsculos frutos pretos em março e abril e suas copas serão colonizadas novamente pelos sanhaços, bem-te-vís, saíras, siriris e até os morcegos. 
Um espetáculo, que se repete duas vezes ao dia, é o vôo das garças brancas da Baía da Babitonga, que aos milhares se deslocam ao alvorecer para as regiões de plantios de arroz e pastagens de gado onde se alimentam de insetos-pragas do arroz e de ectoparasitos do gado localizados em Araquari, Guaramirim e Jaraguá do Sul. Ao entardecer retornam voando em formação delta para os ninhais localizados em algumas ilhas eleitas por elas na Baía da Babitonga, até o dia em que um político qualquer desinformado, autorize a construção de casas de pescadores e veranistas do partido clientelista. 
A importância dos pássaros é enorme. As cidades estão cada vez mais colonizadas por eles, infelizmente. Os centros urbanos não são lugares para esses infelizes. 
Contribuíram para a dizimação e aniquilação das aves silvestres, os madeireiros que transformaram as florestas em apartamentos localizados no balneário de Camburiú; os agricultores reféns da indústria química e das sementes, que jamais procuraram saber como funciona a natureza; os caçadores que com muita convicção dizem que matam os pássaros por que destruíram as matas e assim se livram da culpa. Entre todos esses atores, constam os agrotóxicos da lista dos principais inimigos dos pássaros. 
Na contramão da destruição, começam chegar ao Brasil as associações de observadores de pássaros. São pessoas que os observam e fotografam, inovando nas opções de laser e ocupação do prazer de viver. 
Gert Roland Fischer (ambiente@ekolink.com.br) é engenheiro agrônomo, plantador de palmitos e estudioso da natureza. 
 

 





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