Pescador bom de bico

09/06/2006

Peter Mix

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Não. Não estou falando do companheiro que tem aquela tão falada “conversa de pescador” que sempre pega peixes tamanho-troféu quando vai pescar sozinho, dá asas à imaginação e muitas vezes até convence. 

Não, o “bom de bico” aqui é outro...e é bom mesmo!...e tem asas de verdade!Já adivinhou? Conhece? Conhece o Martim, aquele que sempre leva peixe para casa?Sim, o nosso companheiro de todas as pescarias e todas as águas do Brasil, o Martim-pescador.É um pássaro fascinante, que anuncia sua presença com uma vocalização, que está mais para o matraquear de uma metralhadora do que para um canto, ao passar em vôo rasante sobre a superfície aquática, em direção à sua torre de vigia. Pousa geralmente n´um galho seco e bem exposto, com um campo de visão de 360 graus. Aí fica imóvel, observando com olhar fixo o ambiente abaixo, detectando o menor movimento na água. Pequenos peixes, principalmente os defeituosos, lentos e doentes, são alvo de seu mergulho certeiro. A presa é literalmente espetada com seu bico pontiagudo e desproporcionalmente grande. A média de sucesso nos lances é de um peixinho em cada dois mergulhos. Isto dá uma taxa de eficiência de ótimos 50%! Assim garante o seu diploma de mestre na arte da pesca, cumprindo também um papel relevante para a saúde dos nossos sistemas fluviais e costeiros. 

O Brasil conta com cinco espécies de martins, sendo a mais comum o martim-pescador-grande, também chamado de matraca nos estados do Sul, ou flecha-peixe na Amazônia. Ceryle torquata para os biólogos, ou todos que preferem “falar difícil”.
Numa foto, consegui flagrá-lo no momento em que chacoalhava a água da plumagem, em preparação para o próximo mergulho, onde podia se ver a cor vermelho-ferrugem dominando o peito, enquanto um cinza-chumbo cobria a cabeça e o dorso.
O menor entre as espécies é o miudinho ou aribambinha, pouco maior que um canário.
A felicidade deste companheiro pescador, no entanto, acaba onde começa a poluição de seu pesqueiro, pois o martim não enxerga com suficiente clareza suas possíveis presas em águas sujas de esgoto ou turvadas pelas enxurradas, oriundas dos descuidos da lavoura, que pouco respeita a preservação das matas ciliares de nossos rios. O martim também é vítima da pesca predatória, já que no afã de retirar o máximo possível, em menor espaço de tempo, os pescadores “profissionais” puxam na rede espécies de qualquer tamanho, as grandes e as pequenas. 
Na Europa, os martins são bem-quistos pelo pescador. O nosso bichinho não merece nada menos. Observe-o com carinho e atenção no seu próximo encontro. Você vai descobrir que encontrou mais um companheiro para as suas andanças....e este é pescador, bom de bico, mesmo!
 
 
Peter Mix, alemão de nascimento e brasileiro por adoção, é engenheiro aposentado da Siemens, fotógrafo de meio ambiente e colaborador da Apoena




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