Uma crônica sobre o viver

09/10/2005

Roberto Shinyashiki

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Era seu último dia de vida, mas ele ainda não sabia disso 

Naquela manhã, sentiu vontade de dormir mas um pouco. Estava cansado porque na noite anterior fora se deitar mais tarde. Também não havia dormido bem. Tinha tido um sono agitado. Mas logo abandonou a idéia de ficar um pouco mais na cama e se levantou, pensando na montanha de coisas que precisava fazer na empresa. 
 
Lavou o rosto e fez a barba correndo, automaticamente. Não prestou atenção no rosto cansado nem nas olheiras escuras, resultado das noites mal dormidas. Nem sequer percebeu um aglomerado de pêlos teimosos que escaparam da lâmina de barbear, 
 
A vida é uma sequência de dias vazios que precisamos preencher,  pensou enquanto jogava a roupa por cima do corpo. Engoliu o café e saiu resmungando baixinho um bom dia, sem convicção. Desprezou os lábios da esposa, que se ofereciam para um beijo de despedida. Não notou que os olhos dela ainda guardavam a doçura de mulher apaixonada, mesmo depois de tantos anos de casamento. Não entendia por que ela se queixava tanto da ausência dele e vivia reinvindicando mais tempo para  ficarem juntos. Ele estava conseguindo manter o elevado padrão de vida da família, não estava ? Isso não bastava ? 
 
Claro que ele não teve tempo para esquentar o carro nem sorrir quando o cachorro, alegre, abanou o rabo. Deu a partida e acelerou. Ligou o rádio que tocava  uma antiga canção do Roberto Carlos, detalhes tão pequenos de nós dois… 
 
Pensou que não tinha mais tempo para curtir detalhes tão pequenos da vida. Anos atrás, gostava de assistir ao programa  de Roberto Carlos nas tardes de domingo. Mas isso fazia parte de outra época, quando podia se divertir mais. 
 
Pegou o telefone celular e ligou para a sua filha. Sorriu quando soube que o netinho tinha dado os primeiros passos. Ficou sério quando a filha lembrou-o de que há tempo ele não aparecia para ver o neto e convidou-o para almoçar. Ele relutou bastante: sabia que iria gostar muito de estar com o neto, mas não podia, naquele dia, dar-se ao luxo de sair da empresa. Agradeceu o convite, mas respondeu que seria impossível. Quem sabe no próximo final de semana? Ela insistiu, disse que sentia saudades e que gostaria muito de estar com ele na hora do almoço. Mas ele foi irredutível: realmente era impossível. 
 
Chegou à empresa e mal cumprimentou as pessoas. A agenda estava totalmente lotada e era muito importante começar logo a atender seus compromissos, pois tinha plena convicção de que pessoas de valor não desperdiçavam seu tempo com conversa fiada. 
 
No que seria sua hora de almoço, pediu para a secretária trazer um sanduíche e um refrigerante diet. O colesterol estava alto, precisava fazer um check-up, mas issso ficaria para o mês seguinte. Começo a comer enquanto lia alguns papéis que usaria na reunião da tarde. Nem observou que tipo de lanche estava mastigando. Enquanto relacionava os telefonemas que deveria dar, sentiu um pouco de tontura, a vista embaçou. Lembrou-se do médico advertindo-o, alguns dias antes, quando tivera os mesmos sintomas, de que estava na hora de fazer um check-up. Mas ele logo concluiu que era um mal-estar passageiro, que seria resolvido com um café forte, sem açúcar. 
 
Terminado o almoço, escovou os dentes e voltou à sua mesa. A vida continua, pensou. Mais papéis para ler, mais decisões a tomar, mais compromissos a cumprir …  Nem tudo saía como ele queria. Começou a gritar com a gerente, exigindo que este cumprisse o prometido. Afinal, ele estava sendo pressionado pela diretoria.Tinha que mostrar resultados. Será que o gerente não consegue entender isto? 
 
Saiu para a reunião já meio atrasado. Não esperou o elevador. Desceu as escadas pulando de dois em dois degraus. Parecia que a garagem estava a kilômetros de distância, encravada no miolo da terra, e não no subsolo do prédio. 
 
Entrou no carro, deu a partida e, quando ia engatar a primeira marcha, sentiu de novo o mal estar. Agora havia uma dor forte no peito. O ar começo a faltar … a dor foi aumentando … o carro desapareceu… os outros carros também… os pilares, as paredes, a porta, a claridade da rua, as luzes do teto, tudo foi sumindo de seus olhos, ao mesmo tempo em que surgiam cenas de um filme que ele conhecia bem. Era como se o videocassete estivesse rolando em câmera lenta. Quadro a quadro, ele via a esposa, a filha, a netinha e, umas após outras, todas as pessoas de que mais gostava. 
 
Porque mesmo não tinha ido almoçar com a filha e o neto ? O que a esposa tinha dito à porta quando ele estava saindo hoje de manhã? Por que não foi pescar com os amigos no último feraido ? A dor no peito persistia, mas agora outra dor começava a perturbá-lo: a do arrependimento. Ele não conseguia distinguir qual era a mais forte, a da coronária entupida  ou a da sua alma rasgando. 
 
Escutou o barulho de alguma coisa quebrando dentro do seu coração, e de seus olhos escorreram lágrimas silenciosas. Queria viver, queria ter mais uma chance, queira voltar para a casa e beijar a esposa, abraçar a filha, brincar com o neto….. Queria … Queria … mas não havia mais tempo. 




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