Brejos ameaçados de desaparecer

10/06/2001

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Verônica Falcão

 

Os brejos de altitude, ilhas de floresta úmida no Semi-Árido brasileiro, são o setor mais ameaçado da mata atlântica no Brasil. Levantamento realizado pelo Núcleo de Biodiversidade da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) indica que dos 18.569 quilômetros quadrados de brejos existentes em 1970 no Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, restam apenas 2.626 quilômetros quadrados.

 
“Em quase meio século, 85% dos brejos de altitude foram destruídos”, constata o coordenador do estudo, o ecólogo Marcelo Tabarelli. O desmatamento, segundo ele, começou no século 19, para abastecer as caldeiras dos barcos a vapor que navegavam no Rio São Francisco e dar lugar à cafeicultura. Depois, os brejos passaram a ser alvo do corte seletivo para extração de madeiras nobres, como o cedro.
 
A árvore, que atinge 30 metros e é usada na fabricação de móveis, inspirou pesquisadores do século passado, como Vasconcelos Sobrinho, a denominarem alguns brejos de altitude de florestas de cedro. “Hoje, a planta é encontrada em apenas dois brejos”, diz Tabarelli.
 
A devastação continua e, agora, além de sofrerem exploração de madeira, as matas úmidas do Sertão estão sendo substituídas pelas plantações de chuchu e de cenoura. Em Pernambuco, o levantamento do botânico indica que nos últimos 50 anos desapareceram 11 brejos. Dos 23 apontados na década de 70 num livro do ecólogo Vasconcelos Sobrinho, restam apenas 12. A estimativa de Marcelo Tabarelli é que em 10 anos os brejos sumam do mapa se uma política de conservação não for implementada.
 
Na opinião do pesquisador, a primeira medida a ser tomada é não desmatar mais. A segunda é promover a ampliação da área, com reflorestamento e conexão de fragmentos dentro dos brejos. Para Marcelo Tabarelli, é preciso também impedir a caça e a coleta de plantas, que contribuem para a perda da diversidade biológica. “Junto com a diminuição do hábitat e a fragmentação, esses são os principais fatores da extinção das espécies”, afirma.
 
Outra medida sugerida pelo pesquisador é aumentar a quantidade de áreas protegidas. Dos 2.626 quilômetros quadrados de brejos existentes, apenas 30,05 quilômetros quadrados – o que corresponde a apenas 0,16% – estão em unidades de conservação. As recomendações de Marcelo Tabarelli estão no relatório de um estudo denominado Plano de Conservação dos Brejos da Paraíba e Pernambuco, que será entregue ao Ministério do Meio Ambiente na próxima sexta-feira. O plano, explica o pesquisador, integra um subprojeto do Probio, o Projeto de Conservação e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira, financiado pelo Banco Mundial (Bird) e Global Environmental Facility (GEF).
 
Cercados por caatinga – a vegetação característica do Semi-Árido brasileiro – os brejos de altitude já pertenceram no passado a um único bloco de floresta úmida. A hipótese mais aceita sobre a origem desse ecossistema está associada a variações climáticas durante o Pleistoceno (entre 2 milhões e 10 mil anos atrás). Em períodos interglaciais, de clima mais úmido, a floresta atlântica teria penetrado nos domínios da caatinga. Ao retornar à sua distribuição original, na região costeira, ilhas dessas florestas permaneceram em locais de microclima favorável.
 
Os brejos de altitude ocorrem em alturas que variam de 500 metros a 1.110 metros. A presença da floresta, que resulta na evapotranspiração, associada ao relevo serrano, faz com que eles recebam mais chuvas que o restante do Semi-Árido. Enquanto o índice pluviométrico registrado na caatinga não ultrapassa 900 milímetros por ano, nos brejos esse número fica em torno de 1.200 milímetros anuais.
 
 
Falta de animais põe em risco o que resta da floresta costeira 
 
A floresta úmida costeira do Nordeste, considerada o segundo setor mais ameaçado da mata atlântica brasileira, tem 3.197,62 quilômetros quadrados, incluindo os mangues e restingas, o que equivale a 5,6% da área de distribuição original. Pesquisa publicada no ano passado na revista científica inglesa Nature pelos professores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Marcelo Tabarelli e José Maria Cardoso da Silva indica que cerca de 49% das árvores e arbustos desse trecho de mata que se estende acima do Rio São Francisco pode se extinguir em função da falta de dispersores de sementes.
 
Os principais dispersores dessa porção ameaçadíssima de Mata Atlântica são vertebrados que se alimentam de frutas, como macacos e aves, que estão desaparecendo em função da caça. “A floresta pode ser, no futuro, dominada pelas plantas dispersas por meio de mecanismos abióticos (como o vento) ou de pequenos vertebrados frugívoros, menos sensíveis à fragmentação”, alerta o ornitólogo José Maria Cardoso da Silva.
 
Os pesquisadores explicam que a falta de dispersores é uma conseqüência da excessiva fragmentação na mata atlântica do Nordeste. A extinção da mata pode ser evitada com o reflorestamento que vise conectar os maiores blocos de floresta. Os corredores de vegetação permitiriam o fluxo de animais, garantindo a dispersão de sementes. Como os frugívoros também dependem de território para sobreviver, o aumento da mata garantiria a manutenção de suas populações.
 
Baseado no estudo, José Maria estima que, se a mata atlântica do Nordeste em 20 anos recuperasse 10% de sua cobertura vegetal de origem, teria chances de escapar do desaparecimento. Ele afirma que a extinção não apenas pode acabar com a variedade de plantas e animais, mas também resultar no desabastecimento d’água. “É nas matas onde se encontram as cabeceiras dos rios”, justifica.
 
Assim como para os brejos de altitude, florestas úmidas cercadas por caatinga, para a mata atlântica costeira a primeira medida a ser adotada no sentido de conservar o ecossistema é parar com o desmatamento. “Hoje a mata atlântica do Nordeste tem apenas 2% do que possuía originalmente, quando a média nacional é de 7%. Não dá mais para destruir nada. O que tem já é muito pouco.” Outra recomendação do especialista é aumentar o conhecimento sobre o ecossistema, através de inventários biológicos.
 
A destruição começou no período colonial, para dar lugar à cana-de-açúcar. Quatro séculos depois, a expansão da fronteira agrícola canavieira continua sendo um dos principais fatores da destruição da Mata Atlântica nordestina, aliada à comercialização da madeira e ocupações humanas. 
 
 
Brejo de altitude é hábitat ideal para as avencas e samambaias 
 
Das 330 espécies de avencas e samambaias encontradas em Pernambuco, Paraíba e Alagoas, pelo menos 30 são exclusivas dos brejos de altitude. A pesquisadora Iva Carneiro Leão Barros, do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), considera o ecossistema ideal para esses tipos de plantas, chamadas entre os cientistas de pteridófitas. “Nos brejos elas encontram a umidade necessária para se desenvolverem. Mais de 70% das pteridófitas são constituídos de água”, explica a pesquisadora, que há mais de 20 anos se dedica ao assunto.
 
Embora tenham espécies exclusivas de pteridófitas, os brejos apresentam avencas e samambaias comuns a outras formações de mata atlântica. Num único brejo – a Mata do Estado, em são Vicente Férrer, a 140 quilômetros do Recife – um inventário orientado pela professora registrou 100 espécies.
 
Entre as plantas restritas aos brejos estudadas por Iva Barros estão as do gênero Huperzia. Além da beleza, as nove espécies de Huperzia que vivem nos brejos possuem um grande potencial farmacêutico. Segundo ela, pesquisas recentes revelaram que a planta tem poder curativo para o Mal de Alznheimer, doença neurológica degenerativa. “Por si só, a biodiversidade já justifica a proteção dos brejos de altitude. Mas as aplicações farmacológicas das espécies e a manutenção do ciclo hidrológico também devem ser consideradas.” 
 
 
Matéria publicada originariamente no Jornal do Commercio, de Recife/PE, em 25 de março de 2001, e ganhadora do Prêmio Reportagem de Biodiversidade, promovido pela Conservation Internacional 
 




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