Lições de natureza

10/06/2001

Tamanho da fonte: Diminuir Fonte  Aumentar Fonte

Sérgio Túlio Caldas
 

 

Por um atalho estreito aberto a golpes de facão, um grupo de crianças caminha em silêncio sobre o tapete de folhas ainda molhadas pelo orvalho da manhã, que cobre o chão da mata intocada. Não se trata, entretanto, de uma aventura em meio à natureza selvagem e muito menos de um curso de sobrevivência na selva. Com cadernos e lápis na mão, são apenas estudantes indo para mais uma aula de matemática. A pouco mais de 1 quilômetro dessa floresta repleta de araucárias (árvore que após décadas de devastação se tornou raridade em nossa paisagem), o telefone do gabinete do prefeito – decorado com fotos de cachoeiras e matas da região – toca sem cessar. Do outro lado da linha, invariavelmente, estão ecologistas, cientistas ou técnicos do Ibama querendo discutir projetos de preservação ambiental.

Rotina curiosa? Certamente. Pois é assim o dia-a-dia em Ilópolis, um pequeno município de ruas floridas ao norte do Rio Grande do Sul, onde todos se conhecem (afinal, são apenas 4000 moradores) e que, apesar de ignorado além de suas fronteiras formadas por serras e florestas, em breve estará sob luzes internacionais. Durante o congresso People and Nature – que em julho irá reunir, na Austrália, as principais autoridades em meio ambiente do mundo –, Ilópolis será apresentada como modelo de cidade ecológica do futuro. 
É um direito natural desse município qualificado como o mais verde da Região Sul do Brasil, em área proporcional, segundo estudos recentes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: de sua área de 125 quilômetros quadrados, nada menos que 63% estão cobertos por matas nativas, ou seja, nunca sofreram nenhum tipo de interferência humana. É um número surpreendente. Basta compará-lo com o do próprio Estado rio-grandense, cujo processo de devastação da natureza foi tão intenso que hoje restam ínfimos 3% de sua cobertura vegetal original. 
A manutenção dessa natureza bruta de Ilópolis encontra explicações na História. No início do século (a cidade foi fundada em 1911), a região chamou a atenção dos primeiros imigrantes italianos que vieram de Bento Gonçalves e Caxias do Sul em busca de terra para cultivar. Aos pés das serras abundantes em água, eles encontraram uma floresta rica em araucárias, onde, abaixo da copa dessas árvores de grande porte, crescia em quantidade impressionante a erva-mate, cujo valor nutritivo e comercial já era explorado. Preferiram cultivar a folha com que se faz o chimarrão a destruir a mata para transformá-la em madeira – o caminho contrário de muitos colonos do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, que queimaram e derrubaram extensas florestas para abrir frentes agrícolas. Atualmente, o cultivo da erva-mate é a principal fonte econômica da cidade, que, aliás, fornece o produto a boa parte do sul do país, além de exportá-lo para a Argentina e o Uruguai.
É certo que no passado muitas árvores foram derrubadas para levantar casas, construir moinhos e fazer móveis. E que até o início dos anos 90, vez ou outra, as matas de Ilópolis recebiam visitantes clandestinos em busca de madeira nobre. Como a fiscalização era muito difícil, a cidade acabou solucionando o problema com o uso – mais uma vez – de sua vocação natural para preservar as matas. Em 1992, a prefeitura deu um passo inovador: criou a Escola Agrícola Florestal e Ambiental, a primeira do gênero no Brasil e aprovada pelo Ministério da Educação, onde jovens de 12 a 17 anos aprendem a conservar e a usar corretamente o meio ambiente. “Pensamos em tombar nossas matas, mas descobrimos que criar uma consciência ecológica entre as crianças era algo mais urgente”, analisa Olímpio Zat, prefeito de Ilópolis. “A idéia é fazer com que nossos filhos descubram alternativas agrícolas sem depredar o meio ambiente e compreendam a diversidade de nossas matas. Se respeitarem a natureza, eles terão um potencial ecoturístico formidável nas mãos”, acredita. 
Os 74 alunos da escola ambiental estudam, em período integral, além das mesmas disciplinas que qualquer outro estudante brasileiro da 5ª a 8ª série, matérias como zootecnia, práticas agrícolas, meio ambiente e ecoturismo. A escola, numa área de 30000 metros quadrados às margens de um lago de águas límpidas onde acontecem cursos de canoagem e natação, tem estufas com plantas nativas e frutíferas, canteiro de ervas medicinais e área para criação de animais. Seu projeto paisagístico é de autoria dos próprios estudantes. É claro que também há salas de aula, mas, pode-se dizer, não são tão importantes. 
 
 
Cumprindo o dever
 
“Passar o dia sentado na carteira escolar é muito chato. Acho que aprendo muito mais nas aulas ao ar livre”, reconhece Adriano Montagner, de 15 anos. Os professores da escola ambiental têm essa mesma opinião. São raros os momentos que eles ensinam à frente de um quadro-negro e com o giz na mão. Nas aulas de matemática, por exemplo, uma turma pode estar embrenhada no mato aprendendo como medir a circunferência de uma árvore ou a altura de uma cachoeira. Nas de português, enquanto caminham pelos bosques da região, os alunos identificam plantas e bichos que observam na natureza. Depois, à beira da lagoa, fazem a redação com base em informações coletadas para, em seguida, estudar gramática. Toda a comida consumida na hora do almoço sai direto da horta mantida pelos alunos (que vale nota no boletim). O último trabalho escolar realizado pelos estudantes – e com grande entusiasmo – foi o plantio de 50000 mudas de girassóis, petúnias e outras flores pelas ruas da cidade.
 
 
Esses exemplos de cuidados com a natureza de Ilópolis estão contagiando os moradores. A prefeitura vem incentivando as pessoas a manter jardins floridos nas casas e, há dois anos, promove a Eco-semana, sempre em junho, quando a comunidade participa com novas idéias para melhorar a qualidade de vida e o uso adequado da terra. 
“A conscientização das pessoas é surpreendente”, informa Diamantino João Fassina, coordenador dos projetos de meio ambiente de Ilópolis. De acordo com ele, nos últimos três anos a prática da queimada desapareceu na região e desde então não se tem notícias de derrubadas de árvores ou de caça de animais silvestres. “O município está fazendo a lição de casa direitinho”, alegra-se Fassina, que está à frente de uma campanha de preservação da gralha-azul e de outras aves que vivem nos arredores.
Mas a cidade está aprendendo a conviver – e rápido – com outras novidades. Nos últimos dois anos, cerca de 100 famílias de minifundiários deixaram o cultivo do fumo para plantar tomate, alface, cenoura ou melancia, por exemplo, com sementes e mudas produzidas na escola ambiental. “Para que vamos nos dedicar a uma atividade que resulta num produto que faz mal à saúde? Afinal, estamos na luta pela melhoria da qualidade de vida das pessoas”, avalia Fassina. A prefeitura tem dado benefícios ao agricultor que quiser mudar de ramo e hoje há uma lista de 120 pessoas interessadas em deixar as plantações de fumo para aprender a lidar com os hortigranjeiros. 
 
“Há dois anos não conhecia nada dessa atividade, mas agora já ganho dinheiro com meus 4000 pés de tomate e estou aprendendo a plantar melancia”, diz Ricieri Provense, de 50 anos. Mas a prefeitura quer ir mais longe. O próximo passo será manter as produções agrícolas de Ilópolis livres de agrotóxicos – pesquisa já encomendada às universidades do Vale do Taquari e Federal do Rio Grande do Sul. 
“Essa não é uma lição aprendida em livros. As pessoas dessa cidade estão simplesmente entendendo a natureza”, diz Judith Cortesão, a mais importante educadora ambiental do Brasil. Ela está maravilhada com a riqueza da mata de Ilópolis (há cerca de uma dúzia de cachoeiras com até 60 metros de altura e mais de 600.000 araucárias) e com a vontade da população em preservar esse patrimônio natural. Tanto que vai mostrar a experiência da cidade gaúcha na Austrália, durante sua participação no congresso de meio ambiente organizado pela Sociedade Internacional para a Natureza e Economia Ambiental, uma respeitada organização americana que reúne cientistas e ecologistas de todo o mundo. “Desconheço outro lugar que tenha um perfil tão adequado para ser reconhecido como município ambiental. A natureza de Ilópolis é rica, a qualidade do ar é excepcional e, mais importante, há empenho dos moradores em preservar tudo isso”, diz ela. 
Além da exuberante área verde, a cidade gaúcha tem outras necessidades de preservação. No momento, algumas construções do início do século, como a enorme casa de madeira de lei da família Tomasini e o velho moinho de João Colognes, aguardam para ser tombadas pelo patrimônio histórico. Elas são testemunhas da colonização italiana, da qual descendem 98% da atual população da cidade. Herança tão importante para Ilópolis quanto a natureza exuberante que reina selvagem ao seu redor.
 
Semeando o futuro 

 
Conta-se no sul do Brasil que a gralha-azul (foto), pássaro que vive no trecho da Mata Atlântica entre São Paulo e Rio Grande do Sul, tem o costume de plantar pinhão, a semente da araucária, para em períodos de escassez retornar ao local e usá-lo como alimento. A ave, no entanto, nem sempre volta ao mesmo lugar onde enterrou os pinhões, contribuindo assim para a recomposição das florestas. Por causa desse fascinante ciclo da natureza, a gralha-azul é símbolo de proteção da vida animal em Ilópolis. Há uma campanha para que ninguém cace ou prenda essa bela ave, que pode alcançar quase 40 centímetros de comprimento. O sabiá, que existe em abundância na região, é outro protegido. Afinal, esse pássaro é um amigo natural do homem: ele se alimenta de insetos e lagartas que são prejudiciais à agricultura.
 
 
Matéria publicada originariamente na Revista Os Caminhos da Terra, de São Paulo, em abril de 2000, ganhadora do Prêmio Reportagem de Biodiversidade, promovido pela Conservation Internacional e Fundação SOS Mata Atlântica 




« voltar para a página de artigos
A Apoena | Projetos | Artigos | Notícias | Biomas | Atividades | Especiais | Blog | Vídeos | Contato

Copyright © Apoena - Todos os direitos reservados - desenvolvido por:Luz Própria