Jardim de luxo sustenta tráfico de plantas

10/06/2001

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Sérgio Duran e Karla Monteiro
 

A última moda no paisagismo de luxo em São Paulo é a utilização de plantas nativas brasileiras, especialmente as bromélias. Para atender à demanda por essas espécies, varejistas e atacadistas de flores estão gerando uma nova onda de desmatamento em uma das reservas mais frágeis da flora do país: a mata atlântica.

A feira de flores da Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais do Estado de São Paulo), realizada às terças e sextas-feiras, na capital, é um exemplo do comércio de plantas extraídas ilegalmente da mata.
O fato de estarem em um órgão público - administrado pelo governo federal - não inibe os atacadistas de vender bromélias nativas, que ficam misturadas, nos boxes, às produzidas em estufas.
Os paisagistas, principais fregueses, chegam a comprar lotes de cem plantas como a tigresa e a imperial, respectivamente Vriesia hieroglifa e Alcantarea imperialis.
Esta última é a preferida.Trata-se de uma bromélia gigante, que, ao florescer, atinge até 3 m de altura. A espécie é endêmica da serra dos Órgãos (Rio de Janeiro) - ou seja, é encontrada somente nessa região.
A lei de crimes ambientais proíbe a extração de qualquer espécie da mata atlântica. A pena para quem extrai ou vende plantas retiradas da natureza é de três meses a um ano de detenção e multa de R$ 100 a R$ 300 por unidade extraída. O crime é inafiançável.
A (nome da publicação) visitou a feira da Ceagesp duas vezes na última semana. Na primeira vez, foi acompanhada da bióloga Rafaela Forzza, 27, doutoranda em botânica pela USP (Universidade de São Paulo) e especialista em bromélias.
Na ocasião, Rafaela constatou a venda irregular de plantas nativas em oito boxes da feira  -e em grande quantidade. A primeira coisa que chama a atenção é o tamanho da bromélia imperial que é vendida aqui. São enormes, e as produzidas em estufa não são assim porque essa planta demora no mínimo dez anos para atingir essa altura, afirmou.
Para Rafaela, as modas lançadas pelos paisagistas contribuem para a extração. Porém os paisagistas ouvidos pela (nome da publicação) consideram ser esse um problema do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).
 De acordo com eles, as bromélias resolvem uma questão importante do paisagismo moderno, que é a falta de terreno para plantar. De fácil adaptação, as plantas necessitam de pouca terra. 
 Se deixarmos de usa-las, não estimularemos a produção em estufa. Além disso, por causa da exigência do mercado, é impraticável para um paisagista usar plantas extraídas da mata, ela sua má qualidade, afirma o arquiteto paisagista Benedito Abbud.
 
 
Ceagesp e Ibama 

O gerente do departamento de entrepostos da Ceagesp, João Xavier, declarou, por meio de um comunicado, que a companhia não interfere na operação de compra e venda e não tem competência para fiscalizar a feira. Cabe ao órgão competente, o Ibama, efetuar a fiscalização.
Segundo Mariuda Corrêa, coordenadora de fiscalização do Ibama em São Paulo, o instituto está concentrando a fiscalização no setor de pescados, e, por isso, não tem pessoal para as plantas. A compra de bromélias é proibida, mas nós sabemos que ocorre. Na Ceagesp, só entram flores com nota fiscal, porém são notas de atravessadores, declarou. Flagrar  alguém extraindo as plantas da mata é muito complicado para nós.
 
 
Tribo começa a plantar para poupar a mata 

Nos 948 hectares de mata atlântica da reserva indígena guarani, em São Sebastião, litoral norte de São Paulo, a extração e venda de bromélias e outras plantas da floresta são atividades de rotina.
Os índios colhem pencas de bromélias, plantam em vasos improvisados e as vendem na rodovia Rio-Santos, que fica próxima à entrada da reserva. O preço varia de R$ 5 a R$ 30, dependendo do tamanho e da espécie.
Mesmo com o aval do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), porque a legislação permite aos índios a comercialização de plantas extraídas da reserva, moradores da tribo não querem depender só da extração. Estão começando a plantar, ainda que em pequena quantidade.
Se todo mundo só tirar as plantas da natureza, um dia elas vão acabar, diz o índio Vando dos Santos, 38, o Karay, nome que significa protetor dos pássaros.
Karay está conscientizando a tribo. Depois de ler uma reportagem sobre plantio de palmito pupunha, ele decidiu investir na plantação. Conseguiu algumas mudas na Casa da Agricultura de São Sebastião (litoral norte de São Paulo) e iniciou o plantio de palmito. Isso já faz quatro anos.
Além de palmito, hoje ele produz bromélia e uma outra flor da mata altântica, a elicônia. Tenho 70 clientes em São Sebastião. Transportamos a produção em um carro cedido pela prefeitura. O índio, que divide um casebre de madeira com a mulher e quatro filhos, consegue faturar em média R$ 600 por mês.
Com o apoio da Funai e da Prefeitura de São Sebastião, ele criou o viveiro Salve a Mata, com plantação de bromélias, palmito pupunha e elicônias. Tenho até nota fiscal para as pessoas que compram minha produção, afirma, mostrando um bloco de notas.
Ele diz que, antes da introdução do palmito pupunha na tribo, os índios só exploravam o palmito jussara, nativo da mata, que demora em média 15 anos para atingir o ponto ideal para o corte.
Karay admite, no entanto, que o fim do extrativismo na tribo está longe de acabar. Muitos índios ainda preferem buscar as plantas no mato para vender. Pegar o que está pronto é mais fácil, lamenta.
Emenegildo Santos, o Mirim (pequeno), planta as bromélias que caem das árvores e depois as vende na estrada.
 Cristina de Oliveira, a Paramirim (pequenina), fez um viveiro. Estou ampliando a minha plantação. Quero parar de vender na estrada para vender em casa, diz. 
 
 
Mata atlântica está na moda, diz paisagista 

 A mata atlântica está na moda, afirma o paisagista Marcelo Faisal, que tem no currículo jardins como os da Casa Cor, um dos maiores eventos de decoração do país. Faisal se considera um bromeliófilo total, mas declara que só compra espécies de produtores autorizados.
Para a bióloga Rafaela Forzza, a moda a que se refere o paisagista é a grande tragédia da mata atlântica. Os profissionais de São Paulo influenciam o país inteiro. Daí, ninguém pode segurar a extração. Não tem bromélia para todo mundo, lamenta.
O mercado despertou tarde para a beleza das bromélias. Durante muitos anos, era fácil encontrá-las. Ficavam próximas de nós. Agora, coletá-las ficou difícil, estão mais longe, diz Faisal.
A imperial é a sua predileta. É uma escultura vegetal. O efeito paisagístico dessa planta é classificado por ele como maravilhoso. Infelizmente, é a mais pedida. E o que fazer quando o cliente exige?
Faisal diz que a questão se complica se for analisado o fato de o paisagista não estar matando, e sim transplantando. Do jeito que está, é necessário estimular as pessoas a produzirem, a plantar bromélias para atender a todos, afirma. Segundo ele, o paisagista Burle Marx foi o primeiro bromeliófilo.
De acordo com a bióloga da USP, Burle Marx extraía bromélias com acompanhamento de especialistas. E os tempos eram outros, não havia essa febre de hoje.
Para o paisagista Gilberto Elkis, o que ocorre atualmente é um vandalismo terrível. Não podemos estimular nenhum tipo de extração da natureza, mesmo que essas plantas sejam superprocuradas, considera.
Elkis avalia que o problema está na própria profissão de paisagista. Qualquer um com um curso de dois meses é profissional e sai por aí sem nenhuma preocupação ecológica, sem saber das suas responsabilidades.
Porém, segundo Elkis, identificar uma planta extraída da mata não é complicado nem para um leigo. Isso não serve como argumento, e bromélia nativa não é para ser encontrada na Ceagesp.
 
 
Perfeição 

O arquiteto paisagista Benedito Abbud considera que a extração irregular de bromélias é uma questão de conscientização e fiscalização, e não um problema dos profissionais do paisagismo. Se eu deixar de usá-las por causa da extração, deixarei também de estimular a produção em estufa, e isso representa a sobrevivência de vários agricultores, diz.
Abbud, que já foi presidente da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas, afirma que um projeto profissional não poderia utilizar plantas nativas por causa da exigência do mercado.
Eu não posso projetar um jardim que tenha plantas danificadas, fracas, que irão morrer pouco depois de plantadas. Tudo tem de ser perfeito, e só os produtores conseguem atender a essa qualidade, explica Abbud.
Segundo ele, as bromélias vêm resolver problemas sérios do paisagismo moderno por possuir características como facilidade de adaptação, variedade de espécies e baixa manutenção. Uma bromélia exige pouco espaço de terra. Hoje, as construções têm muita laje, o que restringe o plantio.
Atualmente, Abbud faz o projeto de paisagismo de grandes empreendimentos imobiliários de São Paulo. Eu não executo os projetos, mas cuido para que as empresas que trabalham comigo o façam dentro da lei e da exigência do mercado, afirma.
 
 
 Preço varia de R$ 30 a R$ 200 
 
Os atacadistas de plantas da Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais do Estado de São Paulo) afirmam que é grande a venda de bromélias na feira realizada às terças e sextas-feiras. Segundo eles, a planta caiu no gosto popular e não atrai somente paisagistas _apesar de estes serem os principais compradores. 
 Tem gente que compra caminhão fechado, disse Adalgiza Santos, 50, na primeira visita que a (nome do órgão de imprensa) fez à feira de flores, na última semana.
A bromélia imperial é encontrada na Ceagesp por preços que variam de R$ 30 a R$ 200, dependendo do tamanho. A mesma planta, de tamanho pequeno, é vendida por R$ 150 na floricultura Garden Center, localizada nas proximidades da Ceagesp.
Eu sei que são extraídas ilegalmente, mas isso aqui é terra de ninguém. Ainda bem que estou comprando para replantá-las. Pelo menos essa se salvará, afirmou o arquiteto Dehy Esteter, 60, que estava carregando uma imperial.
Já o comerciante Emílio José Alonso, 37, estava carregando outra bromélia gigante sem saber se era extraída. É uma planta linda, sempre quis ter uma em meu sítio, disse Alonso.
 
 
Guarda florestal 

O guarda florestal aposentado Anízio Santos, 57, é um dos atacadistas de bromélias da Ceagesp. As espécies encontradas em seu box foram apontadas pela bióloga Rafaela Forzza, doutoranda em botânica pela USP (Universidade de São Paulo) e especialista em bromélias, como originárias da mata e não de estufa.
Entre outras diferenças, as extraídas chegam à Ceagesp com cortes no caule e nas raízes e folhas em mau estado. As cultivadas chegam intactas, geralmente em embalagens que identificam o produtor.
Santos negou trabalhar com espécies extraídas irregularmente. Ele disse que trabalha com produtores e fornecedores de Minas Gerais, do Espírito Santo e do litoral de São Paulo – regiões de mata atlântica.
A reportagem comprou uma bromélia imperial e pediu nota fiscal. A nota apresentada por Santos era de outra empresa - a Ilda Flores e Plantas - e não da sua, a Chácara Anízio Santos.
Segundo o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente), tanto o produtor quanto o comerciante de produtos e subprodutos da mata atlântica têm de obter registro do órgão para trabalhar. Nem a Ilda Flores nem a Chácara Anízio Santos possuem registro, segundo o Ibama.
(Nome do órgão de imprensa) voltou a procurar Santos, por telefone, para questioná-lo a respeito do registro do Ibama. O guarda florestal aposentado disse que o instituto deve ter-se enganado. Ele afirmou ter o carimbo do Ibama.
Todo mundo na Ceagesp compra do mesmo lugar. Compramos também dos índios da Boracéia (aldeia indígena localizada no litoral de São Paulo), que vendem na quantidade que pedirmos. Os fornecedores dizem que vêm de estufa, mas, se eles pegam de outro lugar também, não dá para saber, disse.
Os índios guaranis que vivem na reserva não sabem dizer se as bromélias extraídas no local são vendidas ilegalmente na Ceagesp. Ou melhor, nem sabem o que é Ceagesp. De vez em quando aparecem pessoas aqui querendo comprar muita bromélia. A gente vende, informou Vando dos Santos, 39 anos, o Karay.
Comprar dos índios não exime os atravessadores de crime. Segundo o Ibama, a legislação permite que índios retirem plantas de suas reservas para vender. O consumidor que comprar diretamente de um índio não está sujeito a penalidades. Comprar de um índio para revender, no entanto, é crime. 
 
 
Holambra investe em tecnologia 

Holambra (SP) vive de flores. Com faturamento do setor estimado em R$ 85 milhões por ano, a cidade, dominada por holandeses e descendentes, é responsável por 35% do mercado nacional. Lá, o extrativismo ilegal não tem vez. Os 200 produtores locais investem em tecnologia para obter flores perfeitas.
Segundo o produtor Frans Van de Weijer, 46 anos, existem duas formas de se cultivar bromélias para a comercialização sem assaltar a natureza: clonagem e semeadura. As duas técnicas exigem dinheiro e paciência.
A bromélia resultante de clonagem em laboratório leva em média três anos para chegar ao ponto de venda. Por semeadura, técnica que consiste no cruzamento de plantas matrizes, pode-se demorar até 20 anos para se desenvolver uma nova variedade.
Weijer importa suas mudas de laboratórios na Holanda, Bélgica e Estados Unidos. Por cada touceira (pequena moita que gera oito plantas), ele paga R$ 1,40. O vaso sai da estufa para o atacado por R$ 4 a R$ 9, dependendo da espécie. A produção de Weiger é de cerca de 10 mil vasos por semana.
Não é preciso ser um especialista para diferenciar plantas nativas de cultivadas em estufa. 
As últimas são perfeitas e padronizadas. A flor fica exatamente no meio da roseta de folhas.
Fico revoltado quando entro na Ceagesp. Existem poucos lugares onde a bromélia nasce naturalmente. É um pecado retirá-las das matas, até porque plantas nativas não sobrevivem facilmente em jardins e casas, diz Weiger.
A clonagem de bromélias já produziu mais de 10 mil variedades de diferentes cores. Na natureza são encontradas 3.000 espécies. As cores predominantes das flores são vermelho e amarelo.
O índice de sofisticação em Holambra não se limita às bromélias. O produtor de orquídeas Nobuyuky Hiranka, 56, criou uma técnica para clonar a flor. Autodidata, ele aprendeu lendo e hoje produz 160 mil vasos por ano.
 
 
Matéria publicada originariamente na Folha de S.Paulo, em 17 de setembro de 2000, e ganhadora do Prêmio Reportagem de Biodiversidade, promovido pela Conservation Internacional 
 




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