É agora ou nunca

12/06/2001

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 O mundo está coberto de razões para se preocupar com as matas brasileiras. Às vezes, é preciso notar, são razões que dizem respeito  a razões outras, ligadas a interesses outros que não apenas os ecológicos. Nossos campos não só têm mais flores como concentram a maior riqueza deste planeta em biodiversidade, ou seja, abrigam espécies vegetais e animais em quantidade superior a qualquer outro país. No Brasil florescem de 50 mil a 56 mil espécies de plantas. Destas, 16 mil a 18 mil são endêmicas, ou seja, só nascem aqui e em nenhum outro canto do mundo, e correspondem a 7% da diversidade global de plantas. Mas, antes que nos orgulhemos, é fato também que figuramos entre os campeões em destruição e aparecemos com destaque numa alarmante lista dos ecossistemas que, numa cruel combinação, são ao mesmo tempo os mais ricos e os mais ameaçados do mundo.

 
De todas espécies vegetais, 7% só nascem no Brasil
 
Cerca de 20 organizações não-governamentais (ONGs) ambientais estrangeiras montaram escritório no Brasil para acompanhar de perto a tragédia ambiental e tentar, quem sabe, revertê-la. Neste circuito há, também, por certo, quem tenha os mesmos interesses outros, mas disso não trataremos aqui. Uma dessas ONGs, a respeitável Conservation International, sediada em Washington, nos Estados Unidos, e com escritório em Belo Horizonte (MG) desde 1990, acaba de divulgar um mapeamento inédito que inclui a Mata Atlântica e o Cerrado entre os 25 pontos mais críticos do planeta, onde a preservação, mais que
prioritária, é urgentíssima.
 
1,4% da superfície terrestre abriga 60% das espécies
 
São os chamados hotspots (pontos quentes), conceito desenvolvido em 1988 pelo ecologista Norman Myers, que dão título a um primoroso livro, de 430 páginas, 30 mapas, 50 tabelas e 350 belas fotografias, recém-lançado no Brasil, com patrocínio dos Hotéis Transamérica e do Grupo Agropalma.
 
CABE MAIS UM. Amazônia e Pantanal não figuram entre os hotspots porque, embora  riquíssimos em biodiversidade, ainda conservam mais de 75% de sua cobertura original. Mas ainda é cedo para comemorar: Se mantido o atual ritmo de devastação, a Amazônia poderá ser incluída na lista em cerca de dez anos, alerta Russell Mittermeier, renomado biólogo, fundador da Conservation International e principal autor do livro Hotspots. Sob sua coordenação, mais de cem cientistas em 40 países levaram três anos para concluir que, em apenas 1,4% da superfície terrestre (área equivalente a pouco mais de uma Amazônia), vivem 60% das espécies existentes no mundo e 43,8% de todas as espécies endêmicas de vegetais. Isso significa que, se o hotspot for incinerado, 43,8% de suas espécies vegetais simplesmente desaparecem do mapa para sempre e, com elas, a base de toda a cadeia alimentar da região.
 
 
MEDIEVAL. Como é utópico evitar a destruição da natureza no planeta inteiro, o objetivo do estudo foi justamente identificar em quais pontos do mundo - pelo fato de concentrarem a maior riqueza biológica e estarem sob maior risco de desaparecimento - os esforços de preservação do meio ambiente devem ser prioritários. Se não agirmos agora, perderemos nas próximas décadas um terço ou talvez até a metade de todas as formas de vida desse planeta, diz Mittermeier. E muitas poderão desaparecer antes que saibamos de sua existência. 
 
De 250 mil espécies de plantas, cinco mil são medicinais
 
Para o cientista, a sofisticada sociedade tecnológica que chega à beira do século 21 ainda vive na Idade das Trevas no que se refere ao conhecimento da biodiversidade. A ciência já descreveu de 1,4 a 1,8 milhão de espécies de plantas, animais e microrganismos, ínfima parte de um total que pode chegar - pasme! - a 100 milhões de espécies, segundo estimativas de Mittermeier.
 
Segundo ele, se a nossa sociedade deixar que aconteça o que ele chama de holocausto biológico, a natureza levará pelo menos 5 milhões de anos para voltar a apresentar o mesmo nível de biodiversidade que existe hoje. As espécies extintas jamais voltarão a existir, mas este é o mínimo de tempo que o meio ambiente precisará para se recompor e dar origem a novas formas de vida.
 
Com a destruição, o prejuízo é imediato. Das 250 mil espécies de plantas descritas na biologia, cinco mil já foram reconhecidas por suas propriedades medicinais e podem movimentar uma lucrativa indústria. Só nos Estados Unidos, consumidores gastam mais de US$ 6 bilhões por ano com remédios derivados de plantas tropicais.
 
PÉ NO CHÃO. A boa notícia é que bastaria investir US$ 500 milhões por ano para salvar a biodiversidade dos 25 hotspots, segundo cálculos do cientista. Essa cifra, que englobaria custos com a criação e manutenção de parques e reservas, pesquisas científicas, programas de educação ambiental e promoção de atividades econômicas sustentáveis, equivale ao dobro do gasto numa única missão da nave Pathfinder a Marte que, ironicamente, foi buscar indícios de vida em outro planeta - e sem sucesso.
 
 
Enquanto isso, na Terra, além da Mata Atlântica e do Cerrado, a vida está em perigo nos hotspots localizados nos Andes tropicais, Chile, América Central, ilhas do Caribe, Equador, Califórnia (EUA), bacia do Mediterrâneo, Guiné e África Ocidental, Madagáscar e ilhas do Índico, Tanzânia, Quênia, África do Sul, Sri Lanka, Cáucaso, Indo-Birmânia, centro-sul da China, Filipinas, Indonésia, sudoeste da Austrália, Nova Caledônia, Nova Zelândia, Polinésia e Micronésia.
 
 
 
 
 
A mata atlântica mais preservada está na Argentina

A maior parte desses hotspots encontra-se no cinturão tropical do globo, em geral em países menos ricos e com forte pressão demográfica. Nos mais ricos, é bom lembrar, as devastações se deram desde tempos imemoriais. De acordo com o estudo de agora, mas desde sempre, as condições naturais superpropícias ao florescimento de espécies nessas regiões, como temperatura, luminosidade e regime de chuvas, também atraíram a ocupação humana em busca de recursos abundantes da natureza, o que gerou uma desequilibrada briga por espaço entre o homem e as demais formas de vida.
 
DESTRUIÇÃO DE SOBRA. Para uma região ser considerada hotspot, é preciso estar reduzida a menos de 25% de sua cobertura original e abrigar mais de 1.500 plantas endêmicas. Nós passamos com folga por esses critérios. Com 70% da população brasileira vivendo na região da Mata Atlântica, resta hoje menos de 8% de sua cobertura original, que há bem mais de 500 anos verdejava por 1,2 milhão de quilômetros quadrados, ou 13% do que viria a ser o território brasileiro. Margeava toda a costa do País e cobria o interior dos Estados do Sul e do Sudeste. Hoje, curiosamente, as áreas de Mata Atlântica mais preservadas são as que se encontram além da fronteira brasileira: no Paraguai e na Argentina.
 
No pouco que ficou dessa Mata, existem 8 mil plantas endêmicas: isto quer dizer que, de todos os vegetais do mundo, 2,7% nascem única e exclusivamente na Mata Atlântica. Isso é apenas o que se sabe por enquanto. A velocidade da devastação (um campo de futebol a cada quatro minutos) é maior que a das pesquisas científicas. Exemplo: das 23 espécies de primatas moradores da Mata Atlântica, 20 são endêmicas e, destas, duas foram descobertas há menos de dez anos - uma delas a poucos quilômetros do maior centro urbano da América Latina, a cidade de São Paulo.
 
ROEDORES DE BRASÍLIA. No Cerrado, as aparências enganam. A paisagem árida e ressecada, hoje correspondente a apenas 20% da cobertura original, abriga 4.400 espécies endêmicas de plantas, e ocupa o quarto lugar mundial em biodiversidade de aves.  
Localizado na região central do Brasil, estende-se por 11 Estados e abrange 21% do território nacional, mas apenas 3% de seus domínios estão protegidos em parques e reservas nacionais. Sua preservação é vital para a Amazônia, pois nele nascem importantes rios (Tapajós e Xingu) que formam a bacia do maior ecossistema brasileiro em extensão territorial.
 
Na época da inauguração de Brasília, em 1960, o renomado biólogo brasileiro João Moojen descobriu um novo gênero de roedores, classificados de Juscelinomys, em homenagem a Juscelino Kubitschek. Hoje, estes animais não são mais encontrados, estando provavelmente extintos - ao contrário de outros ratos que infestam a política em Brasília.
 
O Cerrado sofre menos com a pressão demográfica do que a Mata Atlântica, mas está sob outras ameaças. Segundo a Conservation International, o próprio governo federal foi responsável por parte significativa da devastação ao incentivar a criação de novas fronteiras agropecuárias na região (principalmente gado e soja), como alternativa ao desmatamento da Amazônia. 
 
Ainda hoje, mesmo depois da divulgação de recentes pesquisas científicas comprovando a rica biodiversidade do Cerrado, o governo federal traçou metas de infra-estrutura dentro do plano Brasil em Ação, como programas de geração de energia elétrica, que comprometem o que restou de seu ecossistema. 
 
ALTERNATIVAS. Para mantê-lo vivo, não é preciso transformar o Cerrado inteiro numa área intocável. A Conservation International defende a criação de reservas nacionais em alguns pontos específicos da região, mas também apresenta formas alternativas de preservação, como, por exemplo, um desenvolvimento econômico que respeite o regime das águas, manejo sustentável das espécies nativas, incentivo à exploração do ecoturismo pelas propriedades privadas, e aumento da produtividade agropecuária nas áreas já desmatadas com a ajuda da tecnologia, evitando-se a desvastação de novas áreas nativas.
 
ICMS ecológico é uma saída
 
Para salvar a Mata Atlântica, a receita da ONG é mais rigorosa: as palavras de ordem são desmatamento zero, ou seja, nem mesmo a extração sustentável de madeira deve ser permitida, dada a situação mais crítica desse ecossistema. 
 
Outra proposta, que vale tanto para o Cerrado quanto para a Mata Atlântica, é a disseminação do uso do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) ecológico, já adotado nos Estados do Paraná, Minas Gerais e São Paulo, e que está sendo estudado também por Bahia e Mato Grosso do Sul. 
 
Funciona assim: municípios que mais preservarem seu meio ambiente recebem maior repasse do imposto estadual. Assim, cidades que, por exemplo, têm seu desenvolvimento industrial limitado pela necessidade de preservar áreas de mananciais que abastecem toda uma região, têm direito a maiores repasses. Mais uma proposta é a isenção de Imposto Territorial Rural (ITR) para áreas preservadas.
 
SEM AJUDA. Talvez o Brasil não estivesse numa situação ambiental tão delicada se o governo oferecesse benefícios fiscais para pessoas físicas e jurídicas que investissem na preservação. Hoje, quem apóia ações de conservação, em geral, são empresas com estratégia de marketing institucional e pessoas que simplesmente abraçam a causa. Nos Estados Unidos, são tantos os benefícios fiscais que é quase impossível alguém não
investir em causas ambientais, mesmo que não se preocupe com o tema, diz Roberto Cavalcanti, diretor da Conservation International no Brasil.
 
Co-fundador da Intel doou US$ 35 milhões à ONG
 
Segundo Heloísa Oliveira, coordenadora de projetos da ONG, não é raro receber de cidadãos norte-americanos doações que vão de US$ 5 milhões a US$ 15 milhões. Há dois anos, uma única pessoa física doou US$ 35 milhões à Conservation International em Washington. Foi o co-fundador da Intel, Gordon Moore, e o dinheiro destinado à criação de um centro de ciência aplicada para biodiversidade.
 
 
500 ANOS EM CINCO. É de um parceiro capitalizado como esse que a Fundação SOS Mata Atlântica, sediada em São Paulo, precisa para correr contra o tempo e desacelerar a taxa de devastação desse hotspot que figura entre os cinco mais críticos. Em junho do ano passado, as duas ONGs firmaram uma aliança, inicialmente, com cinco anos de duração, para pôr em prática seis projetos de preservação com investimento anual estimado em US$ 6 milhões:
 
1. Obter e disseminar informações atualizadas sobre o ecossistema.
2. Educar ambientalmente a sociedade.
3. Conservar áreas protegidas, públicas e privadas, com incentivo à criação
de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN).
4. Monitorar espécies em extinção e as novas descobertas pela ciência.
5.Legislar sobre o uso e proteção da floresta.
6.Identificar e implantar atividades que tragam benefícios econômicos para a
sociedade ao mesmo tempo em que conservam a biodiversidade, como, por
exemplo, o ecoturismo e a exploração sustentável da fauna e flora.
 
Quem sabe, assim, dure pelo menos mais 500 anos o que resta das florestas no País, que por ironia do destino leva o nome de uma árvore ameaçada de extinção - o pau-brasil.
 
 
 
 




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