Os impactos globais do consumismo

19/01/2007

Por Stephen Leahy

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Stephen Leahy
 

O hábito compulsivo de comprar tem conseqüências ecológicas nefastas que deixam sérias seqüelas nos povos do Sul, segundo os especialistas, que prevêem, também, que este ano será um dos mais quentes do último século. É hora de as pessoas se darem conta da relação existente entre suas compras e as conseqüências que isso tem na deterioração ambiental e no aquecimento global. Na América do Norte as vendas para as comemorações de Natal e final de ano alcançaram números recordes. É sabido que os norte-americanos, canadenses e, em menor medida, os europeus são consumidores que desperdiçam muito.

Seriam necessários cinco planetas para sustentar o consumo dos primeiros e apenas três se todos nós nos comportássemos como os segundos, segundo o informe Planeta Vivente divulgado pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF). A humanidade superou a capacidade do planeta de nos sustentar em 1984, segundo esse documento. Nestes 22 anos, os níveis de consumo de recursos aumentaram não somente na América do Norte e Europa, mas, também na China e Índia, além de algumas zonas da Ásia e América Latina. O ritmo de consumo sem precedentes, que para os economistas é um sinal do saudável estado da economia mundial, provocou a mudança climática, entre outros males sociais e ambientais.
 
As pessoas não acreditam que com suas ações individuais façam a diferença, disse à IPS Monique Tilford, diretora-executiva do Centro para um Novo Sonho Americano, uma organização que defende um consumo responsável do ponto de vista ambiental e social. Por exemplo, um computador chinês que nos Estados Unidos ou na Europa se compra por US$ 40 ou US$ 50 pode ser produto do desmatamento ilegal das selvas da Indonésia. Essa ação ilícita fomenta as organizações criminosas, a perda de biodiversidade, libera grandes quantidades de dióxido de carbono na atmosfera e provoca a perda de terras dos povos indígenas.
 
É necessário que as pessoas se transformem em consumidores com consciência ambiental e social, disse Tilford. Isto é, que comprem menos coisas que não são imprescindíveis para sua subsistência, mas, também, que estejam dispostas a gastar mais em produtos que não prejudicam o meio ambiente nem os povos de outras nações. E os que estão dispostos a ser mais conscientes costumam não dispor do conhecimento nem da informação sobre o que é melhor, e esse é o papel de organizações como a nossa, acrescentou a ativista. A organização de Tilford iniciou uma Rede de Compra Responsável dirigida aos governos federais e regionais em 2000, que conseguiu criar um grande mercado de produtos que não prejudicam o meio ambiente.
 
É muito complicado para as pessoas saber de onde vêm e com são fabricados os produtos existentes nas lojas, disse Lester Brown do Earth Policy Institute, dos Estados Unidos, comprometido com uma economia sustentável a favor do meio ambiente. A China fábrica um terço dos móveis do mundo, um dado surpreendente para um país que protege suas selvas com rigor. A importação de madeira disparou nesse país e supera com folga os 40 milhões de metros cúbicos por ano. Os dados mostram que a reexportação de produtos florestais da China para os Estados Unidos e a Europa aumentou cerca de 900% desde 1998.
 
A escassez cruza as fronteiras com rapidez, disse Brown em uma entrevista. Se os fabricantes de móveis chineses não conseguem árvores em seu país, as conseguem na Sibéria, em Myanmar (nome dado à Birmânia pela junta militar no governo), Papua Nova Guiné e Indonésia, acrescentou. Greenpeace, Global Witness e outras organizações registraram grandes operações madeireiras ilegais nesses países, tendo a China com principal destino desses produtos. Na década passada, a China se converteu na principal fabricante de produtos de baixo custo. Mais de 80% dos brinquedos, incluindo artigos eletrônicos vendidos no mercado norte-americano, são fabricados nesse país. Se não consumíssemos todas essas coisas chinesas, esse país não estaria crescendo tão rápido, disse Brown.
 
O consumo excessivo chegou ao absurdo de um cidadão norte-americano comum, que vive na nação mais rica, gasta mais do que ganha no ano. Tilford admite que em nível do consumidor individual as pessoas costumam estar tão ocupada que não querem saber, ou ignoram o óbvio, que seu comportamento causa impactos ambientais como o aquecimento global. É impressionante que as pessoas não façam o mínimo esforço para mudar, ressaltou. A enorme mudança social, necessária para que encontremos a forma de viver de maneira sustentável, não acontecerá sem que ocorra algum tipo de desastre que provoque o tipo de sofrimento que impulsione as pessoas a mudar, acrescentou Tilford. 
 
Brown e Tilford afirmam que a população norte-americana deve eleger pessoas que implementem políticas que visem a assegurar que os produtos vendidos nas lojas de seu país sejam sustentáveis, sem importar sua nação de origem. As pessoas de outros países arriscam suas vidas para que possamos comprar nossos produtos gourmet, disse Tilford. Mas, a menos que exista apoio popular, nada acontecerá. (IPS/Envolverde) 




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