Uma notável aula de humildade

20/03/2004

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O fotógrafo João Kulcsar realizou uma experiência em São Paulo para saber até onde crianças de rua conseguiriam, munidas de uma máquina fotográfica e estimuladas a registrar a cidade, desenvolver a auto-estima e se integrar a processos de aprendizagem. De posse dos dados de sua pesquisa, ele foi convidado a participar do Projeto Zero, em Harvard, nos Estados Unidos, onde se investigam meios de estimular as diferentes formas de inteligência de um ser humano.
Durante um ano, João Kulcsar, na condição de acadêmico visitante, viu os mais sofisticados experimentos espalhados pelo mundo – de meninas da Tailândia, passando por mulheres presas nos Estados Unidos, a adolescente superdotados metidos em invenções. “A gente chega a ficar sem ar de tanta excitação”, conta.
O condutor do Projeto Zero é o neurologista Howard Garder, autor de várias descobertas sobre inteligências múltiplas. Uma delas, por exemplo, é a existência de uma inteligência espacial, que está associada aos movimentos do corpo – foi essa inteligência que fez Ronaldinho ser, apesar de um péssimo aluno, um grande jogador. Tais idéias influenciam educadores em escala mundial.
Programas desse tipo são apenas um fragmento em Harvard, que, desculpem a metáfora futebolística, está para a vida acadêmica como o Real Madrid está para o futebol. Seus idealizadores teriam, portanto, todas as razões para andar de salto alto, mas o que presenciamos na semana, no Brasil, foi um exemplo de humildade que nos faz pensar sobre novas formas de encarar o conhecimento.
 
Esteve no país, na semana passada, Lawrence Summers, para quem Harvard, universidade da qual é reitor, tem muito a aprender e a mudar para de adaptar às novas demandas do conhecimento. Os currículos devem ser atualizados, a formação dos professores deve ser aprimorada, os níveis de cobrança aos alunos devem ser elevados. Para isso, entre outras coisas, busca atrair o que pode de talentos espalhados pelos Estados Unidos e pelo mundo e, assim, manter um clima de criatividade competitiva. Não é falsa modéstia, mas apenas o pragmatismo de quem acompanha, em detalhes, a velocidade da produção e da disseminação dos saberes e fazeres, alterando os modos de aprender a ensinar.
Um dos maiores problemas brasileiros é ainda essa falta de compenetração coletiva de que é preciso investir na qualidade de ensino. Apesar de todos os avanços – que não foram poucos -, os governantes, as famílias e a mídia aparentemente não se perturbam, de fato, com o disseminado analfabetismo funcional na língua e com a incapacidade da maioria dos brasileiros de lidar com contas básicas (juro composto, por exemplo). Há explosões de indignação aqui e ali, quando são divulgados os resultados de testes, mas, logo em seguida, tudo volta ao normal.
 
A humildade pragmática do reitor traz uma lição: a qualidade do ensino depende, em parte, de a universidade se inserir numa comunidade de aprendizagem conectada com o que existir de inovação no planeta. Faz sentido, então, um experimento com crianças de rua paulistanas e suas fotos estar por lá, ajudando a entender como funcionam as inteligências.
Apenas a escola, por melhor que seja, não consegue mais atender as demandas: tem que fazer parte dessa comunidade, orientando os alunos, e ajuda-los a ter autonomia de pesquisa. Um dos melhores instrumentos para esta mudança de patamar foi apresentado no fórum mundial sobre educação, iniciado em São Paulo na última quinta-feira, baseado justamente nesse princípio da comunidade de aprendizagem: a cidade educadora.
 
Erguer uma cidade educadora implica, em poucas palavras, derrubar os muros das escolas e fazer da cidade um aglomerado de salas de aula, convidando o aluno a trilhar pelas mais diversas experiências. Teatros, cinemas, praças, parques de diversões, exposições, bibliotecas, concertos – empresas passam a compor roteiro permanentemente de aprendizado.
Esse roteiro é útil para todos, mas especialmente valioso para estudantes de escolas públicas, muitos dos quais vindos de famílias com baixa escolaridade, que tiveram pouco acesso à cultura.
Sabemos que alunos mais ricos demonstram melhor desempenho não apenas porque estão nas melhores escolas mas porque trazem uma bagagem cultural de casa – a começar do manejo da língua portuguesa.
 
Posso assegurar, depois de ter visto casos bem sucedidos em várias partes do mundo e no Brasil, que integrar as escolas em comunidades de aprendizagem funciona. Aliás, a receita da boa escola pública tem quatro pilares: famílias engajadas na educação dos filhos, comunidade envolvida, professores capacitados e diretor preparado para ser um líder. É assim em Nova York, em Nova Déli, em São Paulo, em Salvador, em Bogotá e em qualquer outro lugar.
Projetos desse porte são fáceis de defender, mas difíceis de implementar, porque envolvem um complexa tecnologia comunitária. Só saem do papel quando se tem a humildade diante do conhecimento, como mostrou o reitor de Harvard, e a certeza de que, sem uma boa escola pública – o que significa fazer do professor um ser reverenciado por todos –, não existe democracia que funcione eficientemente.
 
PS – O Ministro da Educação, Tarso Genro, vai lançar uma magnífica proposta para melhorar o nível de ensino. Pretende estimular os Estados e municípios a ter programas específicos para a formação de diretores, ensinados a serem não apenas dirigentes, mas empreendedores comunitários. Foi assim, exatamente assim, que tiveram início grandes projetos de recuperação de escolas no mundo.  
 




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