O presidente da Apoena, Djalma Weffort, dá a sua visão sobre o meio ambiente em entrevista ao jornal O Imparcial, em Presidente Prudente/SP

30/09/2001

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1 - QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS PROBLEMAS DA REGIÃO?
O principal problema ambiental da região é o baixo índice de cobertura vegetal: menos de 2% da antiga cobertura original de Mata Atlântica que há menos de 100 anos cobria de verde todo o oeste de São Paulo e onde é hoje a região de se denominou Pontal do Paranapanema. Deste problema central, decorrem os demais males da região: erosão e assoreamento do solo, desequilíbrio no regime de chuva, com perda da fertilidade do solo e queda na produção agrícola, surgimento de doenças transmitidas por mosquito, desaparecimento de peixes, diminuição da vazão dos cursos d´água, com reflexos negativos no abastecimento das cidades, redução da biodiversidade e extinção de espécies que nem sequer chegaram a ser estudada pela ciência.   
 
2- QUANDO FOI FUNDADA A APOENA?
A Apoena – Associação em Defesa do rio Paraná, Afluentes e Mata Ciliar foi fundada em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Brasileira que, pela primeira vez na História, dedicou um capítulo inteiro ao meio ambiente. Passados quase 14 anos, os preceitos da Carta Magna relativos à questão ambiental infelizmente não foram implementados.
 
3 - QUAIS SÃO OS OBJETIVOS DA ENTIDADE?
Os objetivos da entidade são, entre outros, a defesa do meio ambiente e das unidades de conservação na região de influência do rio Paraná, o acompanhamento das atividades hidroenergéticas na região, a mobilização da comunidade, a conscientização da opinião pública por meio da educação ambiental, a articulação com outros segmentos da sociedade como o Ministério Público e a defesa da identidade físico e cultural das populações ribeirinhas, ilhéus e pirangueiros. 
 
 
QUAL A MAIOR DIFICULDADE DE SE CRIAR E MANTER UMA ONG EM NOSSA REGIAO?
Diferentemente do que ocorre nos grandes centros, e no Exterior, a maior dificuldade de se criar e manter uma Ong é a falta de tradição da nossa população com atividades voluntárias.  Nem digo que seja falta de recursos, porque mesmo sem dinheiro acredito que muito pode ser feito para a melhoria do meio ambiente e da qualidade de vida da população, através da realização de campanhas e ações, executadas em parceria com  escolas, mídia, iniciativa privada, prefeituras e outros órgãos já estruturados. Nos Estados Unidos, por exemplo, as pessoas costumam não só trabalhar na entidade como doar recursos para o seu funcionamento, coisa que no Brasil, e principalmente em nossa região, soa estranho.  
 
 
4 - O QUE ESPERAR PARA O FUTURO AMBIENTAL DA REGIÃO COM A FORMAÇÃO DO LAGO DA USINA DE PORTO PRIMAVERA (UHE. ENGº SÉRGIO MOTTA), NO RIO PARANÁ?
 
O estrago já está feito. O dano já ocorreu. Há ainda um passivo ambiental da usina que, se bem direcionado, pode trazer bons frutos. É o caso dos programas de reflorestamento, da criação de unidades de conservação, educação ambiental, resgate da memória, recuperação de áreas degradadas e outros programas previstos nos estudos de impacto ambiental. 
 
 
5 - PODE HAVER ALGUM DESEQUILÍBRIO?
 
Existem ainda programas de monitoramento que poderão trazer informações mais precisas sobre o impacto e os desequilíbrios. De qualquer modo, já sabemos que houve desequilíbrio, principalmente o relacionado à supressão de quase 1,5 mil quilômetros de várzea sobre um ecossistema onde conviviam em harmonia animais e floresta. 
 
 
6 - FOI INVESTIDA GIGANTESCA MONTA DE RECURSOS PÚBLICOS NA OBRA DE PORTO PRIMAVERA. É POSSÍVEL CHEGARMOS A UM MODELO DE GERAÇÃO DE ENERGIA MAIS BARATO?
 
Segundo alguns críticos, foram gastos U$ 10 bilhões em Porto Primavera. Para uma obra que estava orçada em U$ 2 bilhões, você imagina quanto não houve de desperdício de dinheiro público! Com a crise de energia e a pressão da comunidade científica, o governo hoje estuda alternativas energéticas menos caras como a energia eólica (movida por vento) e a solar. Mesmo a opção por usinas hidrelétricas de pequeno porte, em rios ‘encaixados’, isto é rios de planalto, com menos áreas alagadas e desapropriadas, pode sair mais em conta. 
 
7 - QUANDO E POR QUE SURGIU O SEU INTERESSE PELO MEIO AMBIENTE?
Posso dizer que nasceu da indignação. Quando eu era menino, eu nadava e bebia a água do rio. Para aprender a nadar, eu engolia peixinhos vivos que eram pegos na peneira. Havia nascentes, córregos e muito verde. Eu ia de bicicleta ao rio Santo Anastácio na sombra, debaixo da floresta, num trecho de 8 quilômetros. E não faz tanto tempo assim! Depois eu me formei em Jornalismo e comecei a escrever sobre o tema. Vi que não dava resultado. Foi aí que decidi criar uma Ong. Tudo isso foi importante mas o fator desencadeante para que eu passasse à ação foi ter tomado consciência de que a Reserva Florestal da Lagoa São Paulo, um santuário ecológico na beira do rio Paraná, ia desaparecer com a construção da barragem.   
 
8 - O SENHOR TRABALHA COM UMA ONG VOLTADA AO MEIO AMBIENTE. ACREDITA QUE A SOCIEDADE, ATRAVÉS DE OUTRAS ONGS, PODE TER PAPEL IMPORTANTE NA PROTEÇÃO DOS RECURSOS NATURAIS?
 
Só há pouco tempo o tema meio ambiente começa a fazer parte da agenda dos governos e dos políticos. As Ongs foram precursoras ao chamar a atenção da sociedade pela destruição dos recursos biológicos.  As Ongs – não apenas as ambientais mas as Ongs sociais – desempenham um papel ainda mais importante porque passaram da denúncia, da militância, do barulho e evoluíram para o profissionalismo, atuando no campo da ciência, da pesquisa, manejo, geoprocessamento e outras atividades que, em muitos casos, desempenham melhor que o Governo.  
 
9 - A APOENA TEM ALGUM PROJETO QUE O SENHOR POSSA CITAR COMO RELEVANTE?
 
Atualmente, a entidade administra a Reserva Florestal dos Assentamentos de Reforma Agrária Lagoinha, Engenho e Porto Velho, que chamamos de Reserva Florestal do Córrego do Veado, em Presidente Epitácio, por coincidência um dos remanescentes da Reserva Estadual da Lagoa São Paulo que escapou da inundação de Porto Primavera. Estamos plantando árvores nativas e desenvolvendo um programa de envolvimento da comunidade. A reserva foi repassada à administração da Apoena mediante contrato de cessão de uso entre a associação e o Incra. 
 
 
10 - QUAL O PAPEL DAS POLÍTICAS PÚBLICAS - DESENVOLVIDAS PELO ESTADO - PARA A PRESERVAÇÃO AMBIENTAL?
 
Direcionar o crescimento econômico com preservação ambiental. Compensar e fazer compensar os estragos causados pelos empreendimentos potencialmente causadores de degradação ambiental como as usinas hidrelétricas. A região contribui com 70% da energia consumida nos grandes centros. O governo desarticula a região, provoca impactos sobre ecossistemas da Mata Atlântica do Interior, impacta quase sempre mais de um estado e, em contrapartida, deixa o quê? Exceto Porto Primavera, que mitigou e compensou graças a mobilização da comunidade e aos avanços da legislação ambiental, as demais usinas pouco resguardaram o meio ambiente e em quase nada beneficiaram as populações locais.
Na nossa região, aliás, não há política pública para o meio ambiente. Os formuladores destas políticas atuam na Serra do Mar ou na própria capital, onde vivem os técnicos e onde há mais pressão da sociedade.
Só para você ter uma idéia, faz 60 anos que o Governo paulista não cria uma única unidade de conservação na região, embora o Pontal do Paranapanema abrigue 80% da floresta estacional semidecidual do Estado, onde sobrevivem as últimas onças-pintadas e os últimos cervos-do-pantanal de São Paulo.
 
 
11 - O SENHOR ACREDITA QUE UM DIA POSSAMOS CHEGAR A UM MUNDO EM QUE O HOMEM TENHA PLENA CONSCIÊNCIA DA IMPORTÂNCIA DO SEU PAPEL NA PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE?
 
Um velho provérbio chinês diz que o meio ambiente não é o que herdamos dos nossos pais e sim o que tomamos emprestado dos nossos filhos. No dia em que todos se derem conta da profundeza da expressão, acredito que o homem ganhe plena consciência. Acredito nisso. É um processo demorado mas com o avanço da consciência ambiental e das descobertas da pesquisa científica, que estão demonstrando que a sobrevivência do homem e a cura de doenças dependem da preservação ambiental, acho que podemos chegar lá. 
 
 
11 -  GOSTARÍAMOS TAMBÉM DE TER UM BREVE PERFIL SEU...
 
1 - DATA DE NASCIMENTO
2 - LOCAL DE NASCIMENTO
3 - SUA FORMAÇÃO PROFISSIONAL
4 - HÁ QUANTO TEMPO VIVE EM PRESIDENTE EPITÁCIO
5 - QUANDO SURGIU SEU INTERESSE PARA TRABALHAR COM O MEIO AMBIENTE
 
Nasci em Presidente Prudente, na Vila Marcondes, em 3 de dezembro de 1950, e fui criado em Presidente Epitácio. Me formei em Jornalismo na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, e depois trabalhei em alguns jornais em São Paulo. Sou funcionário concursado na Assembléia Legislativa de São Paulo onde atualmente presto assessoria ao Partido Verde, na região.   
Meu interesse em trabalhar com o meio ambiente surgiu há quinze anos quando eu e um grupo de pessoas, moradores em Epitácio e em São Paulo, resolvemos criar a Apoena. Em São Paulo, onde eu morava na época, o debate sobre o meio ambiente já era forte, mas aqui na região pouco se falava sobre o tema, a não ser o doutor Hugo Washeck, da Associação Ecológica Regional. 
Poderíamos ter criado a Apoena em São Paulo mas achei que era melhor que ela tivesse a sua sede em Epitácio, onde havia desmatamentos, reservas destruídas, queimada, lixo por todos os lados, esgoto in natura e a usina em construção, mas pouca mobilização da sociedade. Assim, nasceu a Apoena, a primeira ONG ambientalista do Pontal do Paranapanema. Naquele tempo Prudente não era Pontal, aliás, nem sei se é hoje!.
O nome Apoena foi emprestado da língua dos índios tupi-guarani, dizimados na região, que quer dizer ‘reconstruir’, ‘refazer’, em analogia com a expressão Paraná que quer dizer ‘irmão do mar’, ‘parecido com o mar’, ‘rio grande.’ 
 
 
 
Entrevista com o jornalista e ambientalista Djalma Weffort, da Apoena, publicada no jornal ‘O Imparcial’, em 2001. 




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