Rompendo o contrato 2

27/04/2002

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Peter Mix*

 

A aniquilação do habitat nas florestas úmidas do globo, desde que o homem começou a ampliar suas fronteiras agrícolas, já alcança a metade dos nossos recursos florestais primários. Esta, por enquanto, é a causa número um da presente hecatombe.
Já no ano 2000 teremos um saldo de mudanças, originado pela ação humana apenas nos últimos 30 anos, equivalente a toda a perda acumulada de seres, desde o abrupto desaparecimento dos dinossauros. 
O que levou 65 milhões de anos para evoluir às atuais gerações extinguem num piscar de olhos...e extinção é para sempre. E mais! O Planeta levou 150 milhões de anos para acumular os hidrocarboneto, nosso petróleo, carvão etc. que nós decidimos queimar e liberar para a atmosfera em somente 150 anos de civilização industrial. Entre criação e consumo, portanto, uma proporção de um para um milhão. Não há sistema que agüente.
Você conhecia estas magnitudes? Não? Provavelmente não!
E quantas vezes preferimos não as conhecer? Ignorá-las é fácil, pois estas mortes ocorrem sem alarde. Esta morte silenciosa, nos deixa insensíveis à presente redução da diversidade biológica, concorrendo para que o mais grave e urgente problema da humanidade não seja adequadamente identificado e equacionado.  É o apocalipse silencioso!
Estamos pilhando o Planeta em um processo que confundimos com progresso. As magnitudes são alarmantes, sim, mas quem se alarma?
Estamos rompendo um contrato que existe entre nós e os não-humanos, na partilha dos espaços e recursos terrestres, e que está na própria base do equilíbrio da natureza. Equilíbrio e interdependência que estamos apenas começando a compreender através da ciência chamada ecologia.
Este contrato, impresso nas leis da natureza, tem a seguinte leitura, conforme fórmula Desmond Morris, zoólogo inglês e autor do livro-bestseller “The Naked Ape”:  “Cada espécie deve limitar seu crescimento populacional o suficiente para permitir que outras formas de vida coexistam com ela. Há competição,sim, mas esta tem seus limites. Qualquer espécie que queira competir a ponto de subjugar ou destruir tudo o que existe em sua volta, alcança uma vitória inútil. O que ela agora domina não passa de um deserto. Desertos, entretanto, não sustentam vidas, nem mesmo a vida dos vitoriosos.” 
Temos portanto mil razões para, com urgência, procurar e trilhar o caminho da transformação cultural, que nos leve da atual conquista hegemônica da biosfera para a partilha solidária com as outras formas de vida; podemos ser extremamente inteligentes e podemos ser hoje capazes de transformar a superfície da Terra, mas no final não passamos de humildes mamíferos, sem chances de sobreviver sozinhos, porque não estamos acima das leis da natureza. Goethe já anunciava esta fragilidade, quando escreveu: “Estamos rodeados por ela (a natureza). Sem pedir nem prevenir, ela nos acolhe nos passos de sua dança.” Enumerar estas razões é uma tarefa complexa, sem respostas cabais, devido ao paradoxo existente entre as forças que impelem a expansão econômica de um lado, e a frugalidade que necessariamente se impõe, do outro.
Qualquer líder, seja ela político, social ou espiritual, não poderá fugir deste dilema. Buscar a fórmula conciliadora entre estas posturas é um exercício de cidadania responsável que precisamos todos incluir nas nossas “lições de casa”!
Na seqüência deste ensaio procuraremos sintetizar três fortes razões, das quais cada uma isoladamente já justifica uma nova atitude e ações concretas em defesa da biodiversidade, isto é, em defesa do patrimônio genético que passaremos à geração dos nossos filhos.

 

*Peter Mix, alemão de nascimento, brasileiro por opção, é engenheiro, fotógrafo da natureza, defensor do meio ambiente e colaborador da Apoena. É consultor do The Fishing World, tem várias fotos e artigos publicados e promove pesquisas de fauna na região do Oeste paulista. 





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