PAMPA


Miriam Prochnow


PAMPA

O TEMPO E O VENTO O vento minuano que moldou a paisagem e o temperamento do homem é apenas um aspecto da riqueza do bioma


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Por onde o olhar se esparrama pelo horizonte, lá está o Pampa. Um imenso mar verde que tem suas beiradas no Rio da Prata e seu fim, se é que o tem, na Patagônia, bem mais ao sul. Ao se depararem com seu gigantismo solitário – onde no dizer do poeta Echeverria ‘nenhum apoio encontra a vista no seu desejo de fixar seu vôo fugaz’, os argentinos chamam-no de deserto. (Voltaire Schelling)

 

O Pampa ocupa extensas áreas na Argentina, Uruguai e Brasil, aproximadamente 700 mil Km2. Em nosso país está presente no Rio Grande do Sul, nas regiões sul e sudeste do estado, ocupando cerca de dois terços do território, algo em torno de 176 mil km2.
A paisagem do Pampa é bastante conhecida: extensas áreas onde a imensidão das planícies cobertas de gramíneas e varridas pelo vento serviram de cenários para inúmeros filmes, novelas e mini-séries. O filme Intrusa, de Carlos Hugo Christensen, ganhador de quatro Kikitos no 8º festival de Cinema de Gramado, mostrou como vivia o gaúcho no Pampa no século XVIII. As mini-séries O Tempo e o Vento e A Casa das Sete Mulheres, da Rede Globo, mesmo sendo obras de ficção, mostraram um pouco da história do Pampa e muito de sua paisagem.
Presença marcante no cenário pampeano, não se pode deixar de mencionar o vento. Fator vital na configuração da paisagem, o vento minuano, companheiro nos dias de inverno, moldou na só a paisagem como também o temperamento do homem, influenciando seus hábitos.
Essa paisagem bucólica do Pampa está no imaginário popular, no entanto, ela abriga inúmeras outras paisagens e ecossistemas, além das planícies cobertas por campos nativos.

 

Parque de espinilho

 

No sudeste do Rio Grande do Sul, e somente nessa região do Brasil, encontra-se uma vegetação espinhosa e seca identificada como parque de espinilho. Dizia Pe. Balduíno Rambo em A filosofia do Rio Grande do Sul: “O aspecto do parque de espinilho, em que domina o algarrobo, é tão estranho que custa considerá-lo como legítima formação brasileira...”; e ainda”...fitogeograficamente, o parque de espinilho do extremo sudoeste representa uma invasão das formações de parques das províncias argentinas de Corrientes e Entre Rios, onde se lhes associa, como terceiro elemento o coco jataí”.
No município de Barra do Quarai, encontra-se o último remanescente significativo desse tipo de vegetação, sendo reconhecido como Parque Estadual do Espinilho, pelo Decreto nº 41.440, de 28 de fevereiro de 2002, com área de 1.617,14 hectares. Duas espécies arbustivas determinam o aspecto curioso deste parque espinhoso e seco: o algarrobo (Prosopis algarobilla) e o nhanduvaí (Acácia farnesiana).

 

Banhados


Ao contrário do aspecto seco do parque de espinilho, os banhados são presenças comum na paisagem pampeana. No sul do estado, o banhado do Taim, protegido por estação ecológica do mesmo nome, é o mais conhecido. Nos municípios de Itaqui e Maçambará, na fronteira com a Argentina, ocorre o banhado de São Donato, reconhecido como reserva ecológica na década de 1970 e até hoje ainda não efetivado. Estudo realizado pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente indicou a ampliação da área para 17.000 hectares visando abranger outros ecossistemas. Sua área atual, de 4.392 hectares, está praticamente cercada pela agricultura, principalmente de arroz.
A grande maioria dos banhados foi drenada para uso agrícola, através do Programa Pró-Várzea do governo federal na década de 1970. Informações não oficiais dizem que os poucos banhados que restam foram protegidos para viabilizar a caça, uma vez que esta prática está legalizada no RS.

 

Cerros e serras


Com predominância no sudoeste, mas presente em todo o Pampa, encontram-se cerros e serras. Surgem como do nada: pequenos e baixos morros aparecem em uma área totalmente plana, sem pedras evidentes, sem florestas, sem cavidades.
É o caso da Serra do Jarau, no município de Livramento. Ela ergue-se do nada e mesmo de longe é possível visualizar o arenito metamórfico conglutinado. Diz uma lenda que nela habita uma princesa moura que enfeitiça todos os que se atrevem a percorrê-la. O longa metragem Cerro de Jarau, de Beto Souza, tem como cenário essa serra que fica próxima à fronteira do Brasil com o Uruguai.

 

Ameaças


O Pampa está localizado na também chamada metade do Rio Grande do Sul, sendo considerada a região mais pobre do Estado, apesar dos grandes latifúndios. Para minimizar o problema socioeconômico, os governantes vêm há vários anos criando programas que visam levar o “progresso” para a região.
Contrariando a vocação natural da região para a pecuária e turismo, esses programas governamentais pretendem desenvolver uma cultura totalmente estranha ao povo e ao ecossistema da região. A pecuária, atividade tradicional, produz proteína, alimento que recebe alta cotação no mercado consumidor, além de não causar muitos impactos ambientais.
Já está em andamento a implantação de grandes plantações de árvores para a região. O impacto ambiental das grandes monoculturas de árvores é bem conhecido no Planeta. Considerando que a metade sul é uma grande planície, o plantio extensivo de árvores deverá causar impactos significativos no clima da região, por alterar o regime de ventos, e de evaporação, assim como nos recursos hídricos e na cultura. Somente a Votorantim Celulose e Papel anunciou, em 2004, a aquisição de 40 mil hectares de terras em 14 municípios para implantar uma base florestal na região, que fornecerá matéria-prima para futura fábrica de celulose. Há previsão de instalação de duas fábricas no Pampa.
A ampliação da área de plantio de soja e a cultura da mamona para elaboração de biocombustível são as mais recentes ameaças.
Há ainda a antiga e constante ameaça da mineração e queima de carvão mineral e queima de carvão mineral, cujos impactos locais, regionais e globais são bem conhecidos: acidificação da água; alteração da paisagem; deslocamento de populações assentadas; aumento de incidência e freqüência de doenças pulmonares; chuva ácida; e emissão de gases de efeito estufa. Existem minas de carvão localizadas em Candiota que deverão fornecer combustível para termelétricas na divisa com o Uruguai.
O ambientalista José Lutzemberger dizia que as grandes fazendas de criação de gado foram responsáveis pela preservação do Pampa e que essa tradição deveria ser mantida para garantir a existência do bioma. A região do Pampa é constituída basicamente de grandes fazendas de criação. Na região de Bagé, encontram-se inúmeros haras para criação de cavalos de raça. A ovinicultura ainda é uma tradição bastante forte, tanto pelo uso da carne como da lã. Mas a principal atividade é a criação de gado bovino. É dessa região que se originam as mais saborosas carnes do Brasil. A qualidade do campo nativo, aliada às modernas técnicas de manejo, garante produtividade, manutenção da biodiversidade do campo nativo e ganhos financeiros significativos para o produtor rural. Essa é uma das alternativas para a manutenção do Pampa.

 

Areização

 

Em vários municípios do sudoeste gaúcho (Quarai, São Francisco de Assis e Alegrete) ocorre um processo erosivo conhecido popularmente como desertificação. No entanto, trata-se de areização, uma vez que o baixo índice pluviométrico é o fator determinante para os desertos, o que não é o caso dessa região.
Areização é o afloramento de depósitos arenosos e a partir da remoção da cobertura vegetal. Essa erosão é provocada pelo escoamento da água da chuva. Como a vegetação é frágil, o desgaste faz emergir areia sob o verde e o vento faz com que ela se espalhe. As manchas de areia expostas abrangem uma área de 3.600 hectares e começam a se formar em outros 1.600 hectares. Em alguns pontos desse areial, há crateras de até 50 metros de profundidade. Segundo a pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Dirce Suertegaray, o processo tem gênese natural, mas é extremamente acentuado pelo uso inadequado do solo. Para a pesquisadora, há indicações claras que os areiais contemporâneos à ocupação dos índios.
Já foram realizadas pesquisas a tentativa de impedir o avanço da areização, no entanto, os resultados estão muito aquém dos desejados.

 

Fonte: Almanaque Brasil Socioambiental – ISA/2008





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