O fascinante mundo do observador de aves


Peter Mix


O fascinante mundo do observador de aves

Por razões científicas ou simplesmente pelo prazer em estar em contato com a natureza, as pessoas observam aves


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As aves, que podem ser observadas em praticamente qualquer lugar, sempre despertaram o interesse do homem pelo seu comportamento, canto, beleza e cores. Livres na natureza, elas são mais bonitas e interessantes. Se você aprecia as aves em seu próprio ambiente, não deixe de ler O Fascinante Mundo do Observador de Aves, das pesquisadoras Claudia Terdinam Schaalmann e Maria Martha Argel-de-Oliveira , compilado por Djalma Weffort. Fotos de Peter Mix, em galeria de imagens

 

Assim como todos os elementos que integram o mundo natural – seres vivos, material inanimado, fenômenos físicos e químicos – as aves despertam o interesse do ser humano, que é impelido por sua curiosidade a conhecer cada vez mais e a descobrir fatos novos. A busca de novos conhecimentos sobre as aves pode assumir várias formas e ter vários objetivos. Para a maioria das pessoas, essa aquisição é feita de forma esporádica e casual. É o que acontece com pessoas que mantém aves em cativeiro e que procuram veterinários, lojas de animais e outros criadores para saber mais sobre elas para poder cuidá-las melhor. Outras pessoas apreciam animais e plantas e sentem o prazer no “contato com a natureza”, e quando tem oportunidade lêem artigos em revistas ou assistem reportagens e programas na televisão sobre o assunto. 

Já um número muito menor de pessoas, que quer conhecer as aves mais a fundo, procura fontes de informações mais confiáveis. Observadores de aves, guias de turismo ecológico, jornalistas científicos, professores e outros buscam, por profissão ou por lazer, informações fornecidas por livros, por revistas científicas e pelos próprios cientistas. Essa aquisição de conhecimento, mais criteriosa, organizada e que toma mais tempo, é necessária principalmente para pessoas que vão utilizar esse conhecimento em alguma atividade, seja para interpretação dos fatos que elas próprias observam, seja para a transmissão do conhecimento, sob uma nova forma, para outras pessoas. O conhecimento obtido a partir de fontes confiáveis é abundante e as informações são rigorosamente corretas.
 
As formas de estudar as aves
 
O estudo científico das aves pode ocorrer sob diversas condições: em laboratório, nos museus de zoologia, em zoológicos e em seu próprio ambiente, este o que vamos tratar neste artigo.
Entre os vários estudos que podem ser feitos no campo, destacam-se os do comportamento e da biologia, que abordam, por exemplo, dieta e forma de alimentação, atividades reprodutivas, associações com outras espécies, agressividade, migrações, comportamento vocal, casais e bandos, que geram dados indispensáveis para o manejo e a conservação de espécies ameaçadas de extinção; levantamento das espécies que ocorrem em um determinado local que é muito mais do que a simples listagem das aves que ocorrem em uma área. Um levantamento bem feito fornece, para cada espécie, dados sobre o ambiente e época de ocorrência, uma indicação a respeito da abundância (se é comum ou não naquela área), se é residente ou visitante (isto é, se se reproduz ou não na área). Os dados gerados terão várias aplicações, entre elas, subsídio para estudos de impacto ambiental, proposição de planos de manejo e, nos casos de unidades de conservação, podem servir como material de apoio em ecoturismo; estudos de ecologia de um determinado grupo de aves, abordando um aspecto específico (reprodução, alimentação, relações com outras espécies, relação entre aves e plantas). Esse tipo de estudo não representa apenas um avanço para o conhecimento da ecologia das aves no local como também a possibilidade de o ornitólogo envolvido com esse tipo de pesquisa trocar idéias com os grandes especialistas mundiais no assunto; se publicado, seu trabalho pode se tornar referência para estudos feitos por outras pessoas, que o citarão e discutirão em seus próprios trabalhos.
Quaisquer que sejam as abordagens e o assunto, o estudo das aves no campo, para ser sério e para gerar informações confiáveis, depende de alguma preparação anterior e de muita dedicação. O pesquisador deve procurar se atualizar no assunto que vai abordar, lendo artigos e livros especializados. Deve ainda estar familiarizado pelo menos com as aves mais comuns da região onde vai trabalhar e isso pode ser conseguido com a observação das aves na área, com a consulta constante a livros-texto de ornitologia e a guias de campo, e com o contato com pesquisadores experientes. Ao longo do trabalho, deve estar sempre a par do que está sendo feito em sua área de interesse, mantendo contato com outros pesquisadores e freqüentando bibliotecas. 
 
Para que serve?
 
A prática de estudos ornitológicos no campo gera informações que são úteis em diversos contextos. 
Para a ciência propriamente dita: as aves constituem um objeto de estudo perfeitamente válido do ponto de vista da ciência pura. Boa parte das informações são obtidas diretamente do campo, através do estudo da ave viva e em liberdade. A importância do estudo das aves no campo ultrapassa os limites da ornitologia em si, podendo gerar as bases para teorias mais amplas quanto a evolução e fenômenos ecológicos entre seres vivos.  Um dos exemplos mais clássicos é o de Darwin, em Galápagos, que realizou estudos sobre um grupo de passeriformes da família Emberizidae, que corroborou suas idéias sobre mecanismos de seleção natural e deslocamento de caracteres. 
Em avaliações de impacto ambiental e outros estudos: o conhecimento da fauna de aves de uma determinada região ou localidade é muito importante em estudos para a proteção de ambientes nativos e para a recomposição da paisagem natural. Este é um mercado bastante promissor para o ornitólogo, que assume a condição de um profissional liberal, de um prestador de serviços. 
Na implantação e no manejo de unidades de conservação: as aves formam o grupo mais numeroso, em espécies, dentro dos vertebrados terrestres, sendo ao mesmo tempo o que melhor se conhece quanto à ecologia e a conservação. Assim, a ecologia da conservação de espécies raras, endêmicas e ameaçadas é muito mais complexa e, atualmente, muito mais entendida para aves do que para outros organismos. Não causa espanto, portanto, que o levantamento de avifauna, a análise de seu estado atual em uma determinada região ou localidade e a definição de estratégias para sua proteção nessa área, ganhem grande destaque em propostas de criação de unidades de conservação e em planos de zoneamento e de manejo de áreas naturais.
Na educação: as aves constituem um material de trabalho adequado para o educador que procura despertar em seus alunos uma percepção mais detalhada e mais crítica do ambiente que o cerca. Despertam a atenção por serem vertebrados silvestres, e além disso estão por toda parte, são bonitas, exibem comportamentos interessantes e são mais fáceis de detectar e de identificar do que outros grupos de animais nativos com que a pessoa urbana tem contato. Antes de iniciar o seu trabalho, o educador deve conhecer bem as aves da região onde vai atuar e para tanto o trabalho prévio de campo costuma ser necessário, uma vez que são raras as localidades cujas aves já foram estudadas de antemão por outro pesquisador. 
 
É fácil observar? Quais os equipamentos necessários?
 
Há muitas formas de obter informações no campo. Pode-se capturar aves com redes de neblina, redes de canhão, arapucas e armadilhas para pequenos mamíferos; coletar aves com espingardas apropriadas; gravar as vocalizações com gravadores, cassete ou de rolo, e com microfones direcionais; fotografar as aves em diferentes situações; filmar comportamentos. No entanto, o método mais utilizado, e que provavelmente tem rendido o maior volume de informações, é o da observação das aves acompanhado do registro dos dados por meio de anotações ou gravações. Por ser tão utilizada, e por ser a mais simples para o ornitólogo principiante, essa metodologia será apresentada e discutida a seguir.
Alguns equipamentos, apesar de não serem indispensáveis, ajudam na observação de aves. O binóculo talvez seja o mais conhecido e sua utilidade é evidente. Com ele, as aves distantes (e quase todas as aves estão sempre distantes) são vistas como se estivessem mais próximas. Inúmeros tipos de binóculos existem, dificultando a escolha pelos iniciantes. Os binóculos são especificados por dois números separados por um “X”, por exemplo 8X40. O primeiro número, no caso 8, indica quantas vezes o aparelho aumenta, e o segundo é o diâmetro, em milímetros, da lente maior, ou objetiva.  A primeira impressão é de que quanto maior o aumento, melhor o binóculo e é por isso que muitos iniciantes compram os desajeitados binóculos 20X50, cujas principais desvantagens são o grande peso, o pequeno campo de visão e a dificuldade em manter firme a imagem, sem tremer. Embora um binóculo 7X30 aumente menos que um 20X50, é mais fácil de ser usado, mais leve e mais claro. Assim, um dos mais adequados para a observação de aves é o 8X40, que é um modelo de uso geral, mas isso depende também de cada pessoa, da experiência que tem e de estar trabalhando em ambientes claros ou escuros.
 
Caderneta de campo

A caderneta é um dos equipamentos mais importantes, talvez o mais importante para o estudo das aves. Uma informação que não é registrada imediatamente, ainda no campo, dificilmente será lembrada de forma correta.  As cadernetas ideais são pequenas, que cabem no bolso e em espiral, porque podem ficar abertas na folha que está sendo utilizada. Verifique sempre se está realmente levando lápis e caneta, esta preferencialmente de botão. 
 
Os gravadores são quase tão importante quanto o binóculo ou a caderneta (para ornitólogos experientes, podem ser mais importantes que qualquer outro instrumento) e são usados tanto para registrar as vocalizações quanto para anotar as observações. A gravação de uma ave desconhecida permite sua identificação posterior. Permite ainda o uso do play-back: se tocada no campo, a gravação da voz de uma ave pode atrair aves da mesma espécie. O tipo do gravador a ser usado depende do objetivo que se tem mas deve ter precisão e qualidade e de preferência com o uso de um microfone direcional.
A roupa deve ter cores neutras como bege, verde escuro e marrom: ao contrário de animais como o cão e o gato (e também touros e vacas!), que enxergam o mundo em preto e branco, as aves conseguem distinguir as cores e se espantam com as pessoas vestidas com cores berrantes como laranja, amarelo e vermelho. Aliás, este princípio vale para quem entra na mata e tenha interesse em observar também outros animais.
O calçado precisa ser apropriado para caminhadas em terrenos acidentados: em geral pode-se usar tênis ou botas. Nos lugares onde há serpentes peçonhentas recomenda-se botas de cano longo ou, na falta destas, calças de brim grosso com meias grossas (meiões) por cima. Um boné ou um chapéu não espalhafatoso sempre é bom, principalmente em dias de sol forte.
Uma bolsa a tiracolo, de nylon ou lona, ou uma pequena mochila são úteis para carregar o equipamento. Não convém levar muito peso, pois após uma longa caminhada a bolsa parecerá muito mais pesada que no início.
Outros equipamentos úteis: relógio, capa de chuva (casaco impermeável, de preferência), sacos plásticos em dias de tempo instável, podem ser usados para proteger o material que não deve se molhar. O repelente de insetos é valioso; além de evitar o desconforto das picadas, evita também, dependendo da região, doenças transmitidas por picadas de insetos como febre amarela, dengue, malária, encefalite, leishmaniose etc.
Para estudos mais elaborados, os ornitólogos utilizam-se do blind ou hide, uma cabana portátil de pano sobre uma armação de madeira ou metal. A mais utilizada é de pano verde ou camuflado, grosso o suficiente para impedir a luz que vem de trás e revele a silhueta do ocupante. Ideal para fotografias.
 
Quais as melhores épocas e horários?

 A atividade das aves varia ao longo do dia. A maioria é mais ativa nos horários mais frescos – início da manhã e fim de tarde. O melhor período começa pouco antes de nascer do sol, quando as aves começam a deixar seus poleiros noturnos para se alimentar. Uma ou duas horas antes do pôr-do-sol tem início outro período bom, quando as aves voltam a se agitar em busca de comida e vocalizam muitos antes de se empoleirarem para a noite.
Depois do pôr-do-sol, quando ainda não está totalmente escuro, as aves crepusculares entram em atividade, vocalizando e se alimentando. Sua identificação é difícil. Mais difícil ainda é a observação das espécies totalmente noturnas. Dois grupos principais compõem a avifauna noturna, as corujas e os curiangos.
Diversas espécies têm preferência de horários para vocalizarem:
-    Muitas cantam ao nascer do sol e apenas raramente no decorrer do dia;
-    Os curiangos, como o  Nyctidromus albicollis, vocalizam muito durante o crepúsculo;
-    Os irerês (Dendrocygna viduata) voam principalmente durantes as primeiras horas da noite e ao final da madrugada, e sua passagem é detectada graças ao canto característico;
-    O tico-tico (Zonotrichia capensis) tem um canto noturno, que emite cerca de uma hora após o pôr-do-sol e que raramente é ouvido durante o dia;
-    Outras aves cantam a qualquer hora, e um exemplo extremo é o saci (Tapera naevia) que na época de reprodução canta da aurora ao pôr-do-sol e, em alguns lugares, também durante a noite toda!
As condições atmosféricas podem influir na atividade das aves: vento, chuvisco, temporal, depois das chuvas – tudo isso influi no comportamento das aves, e você deve ficar atento.
A época do ano também influência o comportamento. Durante os meses mais quentes, as aves estão envolvidas em atividades reprodutivas. No estado de São Paulo, para quase todas as espécies, o período vai de fins de agosto a início de fevereiro. É também na época quente que ocorrem as aves migratórias que invernam na Amazônia ou no Hemisfério Norte. Em novembro e dezembro, as aves estão ocupadas com a criação dos filhotes. Nesta época do ano e nos meses seguintes, grandes números de jovens que já voam soma-se aos adultos, de forma que há mais aves do que em qualquer outra época do ano.

Onde observar?

Cada ambiente tem características próprias quanto à cobertura vegetal, fontes de alimentação, locais para abrigo e pouso, visibilidade, as quais determinarão o conjunto de espécies que o habita. Pelas próprias características dos locais em que vivem, o comportamento das aves muda de um ambiente para outro.
No campo aberto, a visibilidade é grande. As aves notam de longe a aproximação de uma pessoa e fogem quando ela ainda está distante. Algumas dicas, permitem as pessoas chegarem mais perto:
-    Fique próximo de árvores e arbustos, que ajudam a camuflar a silhueta humana.
-    Ao se deslocar em direção a uma ave, faça por trás de um arbusto, árvore, poste etc.
-    Não fique parado no meio de gramados
-    Mantenha o sol às suas costas
-    Se puder observar dentro de um carro, tanto melhor; as aves parecem não associar o veículo à presença de seres humanos.
No campo aberto vivem muito menos espécies do que ns matas, mas elas são mais fáceis de ser localizadas e observadas. Em geral, são espécies comuns e de identificação rápida; por isso essa observação é muito recomendada para quem está se iniciando nesta atividade.
Nas matas, a observação é difícil. Os iniciantes deve  procurar sempre estar acompanhado de observadores mais experientes. Os brejos e outras áreas alagadas têm uma avifauna própria. Infelizmente, os grandes brejos e banhados naturais estão ficando cada vez mais raros em São Paulo principalmente devido à formação de reservatórios para geração de energia elétrica.
As zonas de transição, também chamadas de ecótonos, são as áreas de contato entre dois ambientes diferentes, por exemplo, mata e campo. São locais excelentes para a observação de aves, pois além de ocorrem espécies de ambos os ambientes, existem um terceiro grupo de espécies, que prefere justamente esse tipo de ambiente.
O ambiente urbano não é homogêneo – há bairros bem arborizados, bairros comerciais movimentados e áreas degradadas, sem árvores ou vegetação. É uma avifauna pobre, pois a ação do homem diminui a variedade de fontes alimentares, de locais para a nidificação e de abrigos noturnos, de modo que só são capazes de viver na cidade espécies de hábitos bastante flexíveis.
É possível observar aves em praticamente qualquer lugar. Durante a observação de aves, o ambiente não deve ser prejudicado, nem mesmo sem querer. É importante que as aves estudadas não sejam incomodas em excesso, principalmente durante a sua reprodução. Examinar um ninho com ovos pode fazer com que seja abandonado, causando a morte de aves que nem nasceram. Além das aves em si, também o ambiente merece respeito.
-    Não deixar lixo, principalmente plástico; leve de volta e jogue em casa.
-    Cuidado com cigarros e fósforos, evitando incêndios (o melhor é nem fumar).
-    Não danifique a vegetação de uso coletivo, já tão escassa.
-    Não colete plantas e animais sem uma boa justificativa (por exemplo, pesquisa científica).
-    Evite deixar vestígios que denunciem a outras pessoas a localização de ninhos; não revele a existência de um ninho, pois a visitação constante pode prejudica-lo.
-    Chame o Ibama e a Polícia Florestal caso constate alguma agressão na natureza: pesca predatória, caça, tiros, queimadas, armadilhas, ruído e barulho exagerados, velocidade excessiva em estradas que cortam matas.
Agora que você conhece sobre o mundo fascinante das aves, e a melhor maneira de observá-las, já pode entrar em ação. Respeitando o que foi apresentado no artigo (primeira e segunda partes) você já estará preparado como um bom iniciante. Boa sorte.

 
Claudia Terdiman Schaalmann, bióloga, tem várias publicações na área ambiental
Maria Martha Argel de Oliveira, PhD em Ecologia, é pesquisadora e membro do Conselho Consultivo do Programa Brasileiro da BirdLife Internacional
Djalma Weffort é jornalista e presidente da Apoena – Associação em Defesa do rio Paraná, Afluentes e Mata Ciliar







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